Entrevista

Adolfo Luxúria Canibal: “Se toda a gente tivesse amor, o mundo seria muito melhor”

14 fev 2020 08:00

Os Mão Morta passaram por Leiria e o JORNAL DE LEIRIA conversou com o seu líder, que abordou o novo álbum da banda, o amor, a sociedade, os extremismos e o ambiente

"É muito difícil encontrar floresta portuguesa em Portugal."
Ricardo Graça
Jacinto Silva Duro

A imprensa especializada diz que, No Fim Era o Frio, é o vosso 13.º disco de originais. O número aziago influenciou-o na escrita?

Já lhes perdi a conta. O número não teve qualquer influência. As contas são difíceis. Temos discos originais que não são discos de estúdio e temos de estúdio que não são originais. Baralhámos as contas todas.

Em Pelo Meu Relógio São Horas de Matar, há 4 anos, havia a rodear a sociedade um sentimento de revolta desencadeado pela crise e pela austeridade, que resultou numa mensagem muito forte. Neste álbum, há uma história distópica, de perda, de desolação e com a crise climática como cenário. A actualidade marca, outra vez, a sua escrita?

É um acaso. No disco anterior, de facto, fomos muito contaminados pelo real a que não conseguimos fugir. Tínhamos uma ideia musical muito real, onde queríamos experimentar o abrandamento do tempo e toda a composição foi feita a pensar nisso. Porém, o real naquela época era claustrofóbico. No quotidiano, as pessoas sentiam a falta de rendimentos e o discurso negativo e agressivo contra os cidadãos... e esse "real", com o seu lado pesado e lúgubre, contaminou a estrutura e letras e o disco acabou por reflectir uma espécie de grito de revolta. Este disco arranca com as mudanças climáticas, mas essa não é uma matéria nova. É muito antiga. Pelo menos desde a Conferência do Rio, nos anos 90, que é um assunto da comunidade internacional, embora não o tenha sido nos media. E também não é o tema principal deste álbum. A história transversal a todo o disco é de amor e de perda.É suficientemente abstracta para a podermos associar à perda do nosso habitat, do nosso planeta. Porém, ela é essencialmente emocional, e desenrola-se num cenário distópico, apocalíptico, em consequência da subida da água do mar, a partir da alteração climática. No seguimento do que temos vivido, dos incêndios, da seca, das tempestades, o disco transformou-se em assunto de notícia. Porém, este é um trabalho estritamente musical, com uma composição associada à música electrónica, mas aplicada à música eléctrica e ao rock. Comecei a fazer as letras para o que o Miguel me ia apresentando, sem pensar em nada em especial e, só a determinado momento, me apercebi que as letras tinham uma linha que as unia.

No disco, há, nas suas palavras, um “contacto sexual com a amada que de repente se transforma numa espécie de monstro horrível, nojento”. Nas mentes de alguns casais isto deve ser muito comum...

Sim (risos), isso faz parte do quotidiano, mas de outra forma. Deve haver muitas pessoas que descobrem que, em vez de um príncipe, casaram com um monstro. Nesta narrativa, aborda o sexo, mas também o amor e a perda... Há um tema, que é o mais comprido do disco, com uma cena de sexo muito forte, mas não está no âmago da questão, que é essa sensação de perda e toda a disfuncionalidade objectiva e subjectiva do indivíduo, quando está sob o seu efeito. O sexo, aqui, não é relevante... só é digno de nota porque não é habitual haver descrições sexuais em canções ou sequer na literatura.

Adolfo Luxúria Canibal@Ricardo Graça

O sentimento do amor não é primário, como o medo ou alegria, pois corresponde a uma construção com raízes antigas na poesia e literatura. Damos demasiado valor ao amor?

Damos pouco valor ao amor. O amor é uma coisa muito importante. O problema é que o confundimos com muitas outras coisas, nomeadamente com a paixão. O amor não é sofrimento, o amor é plenitude. É um estado zen, é um estado de bem-estar. A falta do amor é que cria sofrimento. Já a paixão é uma coisa muito vívida, muito arranhada, muito carne viva, e, do mesmo modo que dá grandes alegrias, também dá grande sofrimento. O amor tem tendência a perdurar mais e a crescer. Temos tendência a associar as grandes histórias de amor a uma certa habituação ao outro... O amor é habituação ao outro e integração do outro em si próprio. É um esvaziamento do ego próprio para o partilhar e, nessa partilha, partilhar também o ego do outro, integrando-o em si. É um estado de grande plenitude, de grande cumplicidade e de grande paz. Se toda a gente tivesse amor, o mundo seria muito melhor e simpático.

Gostamos, contudo, mais de Romeu e Julieta e de Pedro e Inês, do que das "histórias chatas" de velhinhos que passaram uma vida inteira juntos e passeiam de mãos dadas.

São velhinhos que vivem bem. Que vivem pacíficos... Precisamos de conflito. Aliás, o conflito até está no cerne das artes. Toda a dramaturgia só existe porque ele existe. A pintura, sem conflito, torna-se oca. As grandes canções, as grandes sinfonias, os grandes romances... sem conflito não produzimos, mas a produção cultural e artística não é um sinal de amor, de plenitude, de bem-estar. Para o autor, o acto criativo é a busca de remoção do conflito ou de uma dor interna que existe por não haver plenitude. É uma forma de apaziguar o sofrimento.

É um homem que vive o amor ou sofre de paixão?

Sou uma pessoa que vive de forma pacata.

Muito mais do que os Mão Morta
 
Adolfo Luxúria Canibal é o pseudónimo artístico de Adolfo Morais de Macedo, músico, compositor, letrista e jurista nascido em Luanda, Angola. Licenciado em Direito pela Universidade de Lisboa, exerceu advocacia até 1999, sendo hoje especialista em Direito do Ambiente.
 
Foi fundador dos grupos Auaufeiomau (1981/84) e Mão Morta (desde 1984), e colaborou com grupos como Pop Dell'Arte, Santa Maria Gasolina Em Teu Ventre, Golpe de Estado, Mécanosphère, Clã, Wray Gunn ou Moonspell.
 
É autor de textos em jornais e revistas, e editou vários livros, entre eles Rock & Roil, Estilhaços, Todas as Ruas do Mundo, Garatujos do Minho, o livro-objecto Desenho Diacrónico, com Fernando Lemos e No Fim era o Frio e Outros Textos de Amor e Solidão.
 
Chegou a ser autor e locutor de programas de rádio, na Rádio Activa (Braga) e na RUT - Rádio Universidade Tejo (Lisboa). Concebeu ainda com João Onofre o filme de videoarte S/título, para o festival Curtas de Vila do Conde, e com Inês Jacques, o espectáculo de dança No Fim Era o Frio, para o festival Guidance, que resultou no novo álbum dos Mão Morta.

Falando em conflito, mas em conflito social e actual, André Ventura e Joacine Katar Moreira são duas faces da mesma moeda da insatisfação social?

São dois opostos e são ambos disparatados. A Joacine pode ter boas intenções, mas tem um discurso muito direccionado para tribos específicas e é muito centrada na questão racial e imigratória... Não aborda muito o tema dos direitos da mulher e igualdade de género. Foi eleita por mérito próprio, porém a representar o partido e, segundo as regras do sistema eleitoral democrático português, foi o Livre que foi eleito. Assim que ela recebeu um bocadinho de notoriedade, não a soube gerir e transformou-se no contrário das ideias que defende. Não sou politólogo, nem sei como funcionam as questões sociológicas da implantação dos partidos ou do poder de atracção para o voto, mas parece-me que Joacine se tornou numa personagem ditatorial, tornou-se numa prima-dona e não soube gerir a simpatia que ganhou... tornou-se, de alguma forma, numa personagem repelente. Se esquecermos o discurso e se atentarmos ao que faz, parece uma personagem de extrema-direita. Nesse sentido, aproxima-se do Ventura. E o André Ventura é uma personagem asquerosa, como qualquer personagem de extrema-direita. É reaccionário, racista, completamente contraditório na forma como formula o que diz. Tem um discurso populista e é certo que todos os políticos o têm para angariar votos. Mas, no discurso do Ventura, notamos que ele tenta apanhar o pior do ser humano. O discurso populista dos outros políticos, em campanha eleitoral, promete muito e assenta em coisas boas: mais emprego, melhores salários... O Ventura pega na maior ruindade que as pessoas têm dentro de si e transforma-a em bandeira a prosseguir. O público, que sente um mal-estar, segue esse discurso negativo de maldade. Como disse, não sou polit&oacut

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