Entrevista

Ana Jacinto: “Os encerramentos são silenciosos. Uma empresa encerra e ponto final”

19 ago 2021 11:50

Ana Jacinto, secretária-geral da Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal, afirma que a descida do IVA é “urgente, útil e necessária para estes sectores”

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Nuno Martinho - AHRESP
Raquel de Sousa Silva

Tendo em conta a aproximação da discussão do Orçamento do Estado para 2022, a AHRESP apelou aos Grupos Parlamentares para colocarem na sua agenda a discussão e defesa da redução do IVA nos serviços de alimentação e bebidas para a taxa reduzida (6%). Está confiante que vai haver acolhimento a esta proposta?
Não sabemos se vai haver acolhimento. A nossa missão é tentar convencer quem pode contemplar esta medida de que ela é urgente, útil e necessária para estes sectores de actividade. Não nos cansamos de dizer que esta medida poderia ajudar a reter tesouraria nas empresas, que é algo de que precisam muito, porque todas as expectativas que tínhamos há dois meses de que o Verão poderia ser bom indicador da retoma não estão a verificar-se. Em Agosto beneficiamos do turismo interno, mas o internacional continua com muitas limitações, por isso a descida do IVA revela-se como medida essencial, não só pela questão da tesouraria, mas por outra muito importante que é a manutenção do emprego. Ontem [dia 11 de Agosto] voltámos a falar da pertinência desta medida porque saíram dados do INE que nos dizem que voltámos a perder postos de trabalho com grande gravidade. Perdemos 32.400 postos de trabalho no segundo trimestre de 2021 em comparação com o período homólogo, no qual já estávamos em crise, daí a gravidade dos números.

 

A descida do IVA é uma medida reclamada também por outra entidades…
Todas as confederações europeias dos sectores da hotelaria e restauração têm pedido para se baixar o imposto, nem que seja de forma temporária, que é o que a AHRESP também está a solicitar, para permitir manter mais postos de trabalho. Está mais do que provado que a medida consegue ajudar a manter empregos. Muitos foram os Estados-membros que de imediato baixaram o IVA de forma temporária. O que estamos a solicitar não é inédito e está comprovado que a medida se torna eficaz nestas duas vertentes: retenção de tesouraria e, com isso, maior folga para manter postos de trabalho.

 

No início de 2020, antes da pandemia, estes sectores já sentiam dificuldade em recrutar. Com esta perda de emprego a dificuldade vai agravar-se…
Parece um bocadinho estranho, mas sim. Estamos a perder postos de trabalho, mas as empresas que precisam de contratar, por força da sazonalidade, não conseguem. Por um lado, estamos a perder postos de trabalho, mas por outro temos dificuldades em contratar. Como é que isto se explica? Do nosso ponto de vista tem uma explicação lógica. Muitos destes trabalhadores foram à procura de emprego noutros sectores de actividade e acabaram por fica. Até porque, como sabemos, quer o alojamento quer a restauração são áreas difíceis, porque trabalhamos 24 horas, sábados, domingos e feriados, quando outros estão em lazer nós estamos a trabalhar. Não somos os únicos, é um facto, mas são sectores difíceis e as pessoas aproveitaram a inactividade para procurar outros locais para trabalhar e acabaram por ficar. Há também muita gente que está a receber subsídio de desemprego e não quer voltar ao trabalho, outras procuraram áreas que permitem teletrabalho, que é mais confortável, e agora não querem mudar os hábitos que adquiriram ao longo destes meses.

 

O problema poderá intensificar-se?
Já sinalizámos esta problemática, porque estamos convencidos que ela se vai agravar. Vamos a seguir ter uma época tradicionalmente baixa, que nos está a preocupar muito, não sabemos o que vai acontecer, porque os apoios são muito escassos, para não dizer quase nenhuns, e portanto não sabemos como as empresas se vão aguentar, mas as que aguentarem vão ter este problema da contratação. Já pedimos uma reunião à senhora ministra do trabalho, porque este tema já era muito preocupante antes da pandemia e provavelmente vai continuar a sê-lo se não tomarmos medidas e não se fizer planeamento nem acções de dignificação das profissões do sector do turismo. Na AHRESP não descansaremos enquanto as famílias portuguesas não desejarem que os seus filhos enveredem por estas profissões, o que não é ainda uma realidade. Quando se pergunta a um pai ou a uma mãe o que querem que o filho seja, é raríssimo ouvirmos que querem que seja empregado de mesa. Estas profissões são tão ou mais dignas do que outras quaisquer, e precisamos de fazer este esforço de valorização.

 

A descida do IVA é um dos pontos do plano que a AHRESP fez chegar ao Governo, sob o mote Garantir a sobrevivência. Já têm feedback do executivo?
Infelizmente não temos [dia 12 de Agosto] notícias do Governo relativamente a este plano de sobrevivência que contém dez medidas muito concretas que pensamos que devem ser implementadas se queremos salvar as empresas que existem e manter os postos de trabalho que asseguram. Esse plano assenta em seis áreas de intervenção prioritárias: liquidez, porque as empresas precisam de liquidez; incentivos ao consumo – é verdade que o Governo criou um programa com este objectivo, o IVAucher, mas este não é suficientemente massificado e alargado, do ponto de vista das empresas não é apetecível, embora tenha havido um esforço constante do Governo para ir limando e resolvendo os problemas que a AHRESP foi identificando. Fizemos chegar ao Governo outras propostas que do nosso ponto de vista seriam mais rápidas e eficientes, como aconteceu no Reino Unido, em que o consumidor tinha um desconto directo e automático na refeiç&atild

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