Entrevista

André Jorge: "O excesso de voluntarismo pode colocar as pessoas que se pretende salvar em risco"

19 mar 2022 12:04

O director-geral do Serviço Jesuíta aos Refugiados diz que, além da questão humanitária, os países têm muito a ganhar com o acolhimento de refugiados.

Maria Anabela Silva

O Governo tem passado a mensagem de que não há limite para a entrada de refugiados. O País está preparado?
A experiência no acolhimento a refugiados é hoje maior, quer da parte do Governo, quer dos portugueses e das instituições. Não é a primeira vez que estamos a fazer este trabalho. Já em 2015, a sociedade civil se mobilizou para o acolhimento de refugiados vindos da Síria. No ano passado, tivemos a crise do Afeganistão, que teve também resposta da sociedade civil. Desenvolveram-se práticas de acolhimento, que nos permitem estar hoje mais bem preparados. Por outro lado, o Governo diz que pode acolher aqueles que puderem vir também porque não existe na Europa nenhum sentimento de medo que obstaculize ou que possa criar sentimento de insegurança face ao acolhimento destas pessoas. Isto é um factor muito importante.

O facto de haver uma comunidade ucraniana bem integrada também dá confiança ao processo?
Exacto. O acolhimento de cidadãos ucranianos, de modo geral, tem corrido bem. Integraram-se, aprenderam a língua e criaram as suas comunidades sem que se tornassem guetos sociais. Isso dá uma almofada de tranquilidade para acolhermos agora estes refugiados. Por outro lado, é expectável que muitos dos ucranianos que venham sejam, sobretudo, familiares de outros que já cá estão. Há na Europa e em Portugal um sentimento de que estas pessoas não trazem com elas qualquer referencial de desconfiança. Um referencial que existiu em relação a outras comunidades. Quando acolhemos população da guerra da Síria assistimos por essa Europa fora - em Portugal nem tanto - a uma atitude de muita reserva. Foi tema que dividiu a Europa, o que não se verifica agora. Os países que estão hoje a ter o maior impacto com a chegada dos cidadãos ucranianos fugidos da guerra foram aqueles que fecharam as portas à passagem dos refugiados da Síria, que são tão vítimas como estes.

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