Entrevista
António Moderno: “Não me parece bem esta ideia de criar um país só de doutores e de engenheiros”
15 out 2026 10:40
Professor catedrático da Universidade de Aveiro e vereador na Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Pombal (1974-76), ao 83 anos, avalia o meio século de poder local, critica a massificação do ensino superior e defende que “o poder local tem de ser poder local”
Em 1974, com pouco mais de 30 anos, foi vereador da primeira Comissão Administrativa Municipal da democracia em Pombal. Como foi que o convidaram?
Na altura, quem mandava no concelho de Pombal, tal como hoje, eram as pessoas que habitavam a então vila. Não ligavam nada ao pessoal das outras freguesias. Em 1974, Manuel Pimentel, o presidente da comissão administrativa municipal, tinha uma visão alargada do território, devido ao facto de ser solicitador o que lhe dava contacto com as freguesias. Dos elementos dessa comissão sou o único que está vivo. Fui convidado porque o Pimentel escolheu pessoas de tendências políticas várias, para a sua equipa. Por exemplo, o Vaz de Morais, que sempre foi mais social-democrata, ou o Orlando Cordeiro, que era advogado e foi o primeiro presidente da Caixa Agrícola de Pombal, que era um homem de esquerda muito equilibrado.
Num concelho rural, acabado de sair do Estado Novo, quais eram as maiores necessidades?
Após a revolução do 25 de Abril, o povo começou todo a solicitar coisas. Uns era caminhos, outros queriam electricidade. Lembro-me de familiares meus que iam ter comigo e me diziam: “precisamos de luz” e eu respondia sempre: “vou tratar disso”, mesmo sabendo que não podíamos tratar... Éramos muito solicitados. Eu, que estava ligado ao ensino, ia ver as escolas e os professores diziam “precisamos disto, precisamos daquilo”. Quem pedia mais não eram os habitantes da vila de Pombal - esses tinham praticamente tudo -, mas as freguesias que, ainda hoje, têm uma carga de ruralidade muito significativa. Precisavam de tudo. Não havia água canalizada, não havia luz, não havia esgotos, não havia nada. E o que é que podíamos fazer? Só, dizer “vamos tratar disso, vamos tratar disso”. Não tínhamos poder executivo e só tínhamos verba para gerir os serviços e as despesas correntes da câmara. O que fazíamos de mais significativo era explicar ao público o que era o 25 de Abril. As freguesias do concelho, com todo o respeito, eram essencialmente conservadoras. Tivemos de lhes explicar o que era a liberdade e a democracia. É curioso como foram as pessoas das freguesias e não as da vila que perceberam isso mais rapidamente. Não tinham nada, mas começaram a reivindicar caminhos e electrificação. A grande dinâmica da comissão foi politizar e explicar que, com a revolução, não eram os comunistas que aí vinham, porque havia a ideia de que os comunistas iam tomar conta de tudo. Escrevi um editorial no jornal com o título A Deus o Que é de Deus. À Política o Que é da Política, porque havia um padre de uma freguesia que alertava: “atenção, vêm aí os comunistas! Quem tiver dois porcos, eles levam um”.
Sei que chegou a ser director de um jornal de Pombal, na época.
O Pombal Livre. O Pimentel era o dono e eu fui escolhido como primeiro e único director. Foi uma experiência interessante. Era um jornal que tinha muita saída e vivia das vendas. Nasceu durante a comissão administrativa e era, de certa maneira, o porta-voz da mensagem e do movimento do 25 de Abril. Não havia como espalhar as notícias e a dinâmica do 25 de Abril, a não ser por meio daquele simples jornal que nós publicávamos. Durou o tempo próprio que tinha de durar, até haver as primeiras eleições autárquicas livres. Arrancou quando, um dia, o Manuel Pimentel disse-nos, com aquela voz empolgante: “vamos criar um jornal!” Ele é que deu o título... mas eu nunca gostei muito do nome. Não tínhamos ninguém para director e o nome tinha de ser aprovado pelas entidades de Lisboa, ligadas à comunicação social. Lembrei-me que tinha um diploma de jornalista, passado pela universidade de Espanha, onde estudei. Foi só um curso de aí uns oito dias, mas o meu nome foi aprovado. Havia sempre queixas e que a freguesia da Pelariga queria não sei o quê, que a freguesia do Louriçal também queria o mesmo e mais tal e tal. E eu geria o jornal e dava uma volta do ponto de vista literário àquilo que as pessoas escreviam. Afinava os textos e dava-lhes um tom mais jornalístico. Os meus editoriais sobre a realidade local, enquadrados pelo espírito do 25 de Abril, ganharam fama e começaram a ser publicados num diário de Lisboa vespertino. Dava-me um gozo danado.
Este ano cumprem-se 50 anos sobre as primeiras eleições autárquicas livres. Que balanço faz do poder local democrático?
Falta cumprir ainda muita coisa a nível dos meios rurais, principalmente. Vejo isso em Pombal, onde a cidade se desenvolveu muito, mas as freguesias desenvolveram-se pouco. Terras ainda sem água e sem saneamento, que são necessidades básicas. Isso ficou por cumprir tal como um certo espírito de politização das pessoas. Os munícipes ainda têm de ir à câmara pedir. Não! Tem de ser a câmara a ir às terras a perguntar o que precisam. Houve muitas coisas que melhoraram e melhoraram muito. Em Pombal, por exemplo, aquele rapaz - que foi, para mim, o melhor presidente da câmara -, o Guilherme Santos, foi talvez o que mais contactou com as pessoas. Os outros também criaram uma certa dinâmica, mas sempre à volta do centro Pombal-cidade. O 25 de Abril, acho que se cumpriu à volta de 50% e ainda há outros 50% por cumprir.
Foi por isso que, aos 82 anos, se candidatou à Assembleia Municipal, pelos independentes?
Tenho agora 83 feitos e já sou um veterano nestas coisas. Nos concelhos, enquanto a politiquice não acabar, não se vai a lado algum. Portanto, quando os independentes me convidaram, disse sim, para defender a nossa terra. Prefiro ter um presidente da minha terra, que conheço e que conhece os meios rurais, que vá lutar. Porque o poder local tem de ser poder local. Os eleitores têm de escolher os melhores da terra e os melhores do concelho. E era essa filosofia que também estava subjacente na comissão administrativa em 1974. Éramos de vários quadrantes políticos e éramos aqueles que se considerava serem os melhores, os mais conhecedores da situação real. Hoje, o poder local está muito misturado e muito subordinado ao central. Temos de ir buscar as melhores pessoas seja a que partidos for, desde que sejam competentes. No futuro, à medida que esta juventude avança e se cansa da partidarite, acredito que as pessoas competentes, esta gente nova, vai propor-se, independentemente dos partidos. Atenção que “independente” não é deixar de ser político. Ouço na rádio e na televisão, pessoas que dizem “eu não sou político”, mas somos todos políticos, no sentido grego da palavra! Na Grécia antiga, político era aquele que defendia a sua polis, a sua cidade e a sua comunidade. Podemos é não ser partidários.
O reaparecimento de partidos que defendem o extremismo em vez da ponderação e moderação preocupa-o?
Olhando para a realidade do País, concluo que não somos imunes ao que se passa no resto do mundo. As pessoas estão cansadas destes partidos simples. Os problemas não são resolvidos e aparece o contrapoder, a extrema-direita ou a extrema-esquerda. A extrema-direita, em especial, aproveita este cansaço do público, e as pessoas, sociologicamente, precisam de alguém que as ouça. Quem tem oratória leva os mais ingénuos e os mais desprotegidos. Somos o resultado, de certa maneira, do que se passa na Europa. Há uma extrema-direita mais radical, que usa a política do bota-abaixo. E a política do bota-abaixo não leva a lado algum, mas capta os indecisos e aqueles que não viram as suas necessidades minimamente satisfeitas. Com o custo de vida a subir, isto é um chamariz para os adeptos, prosélitos das carências. O sistema de direita, principalmente, vai impor-se e vai impor-se, porque há muitos, muitos, muitos, que têm muitas saudades de um Salazar. A Assembleia da República, é um pagode onde todos se atacam uns aos outros. E o Zé Povinho está a assistir ao pagode e a dizer “o que falta aí é um Salazar para impor o respeitinho”, mas os causadores são aqueles que menos respeitam. Há uma certa incongruência nisto e quem está no poder tem de fazer a chamada pedagogia do poder, em função do povo. A Assembleia da República, ultimamente, tem feito um mau serviço à nação no sentido de não haver equilíbrio. Aquilo é uma feira das vaidades, o povo perde o respeito e a extrema-direita aproveita essas coisas. Defendo que só devemos dar poder pela capacidade das pessoas para exercer essa pedagogia.
É professor catedrático na Universidade de Aveiro e trabalhou em tecnologias educativas e didáctica, com colaborações em Berlim e no Brasil. Qual foi o trabalho que mais o marcou?
Fui convidado para a Universidade de Aveiro, no seu arranque, nos anos 80. Fui dos primeiros no meu departamento. No dia em que lá entrei, disse: “estou aqui para trabalhar!”. No primeiro ano trabalhei muito, que nem um galego. Tinha um bom currículo e formação em psicologia pedagógica, e percebi que aquele era o meu lugar. No segundo ano, disse ao reitor: “vou embora, a não ser que me arranje uma bolsa para ir fazer doutoramento”. E fui fazê-lo para a Universidade de Poitiers, em França, em ciências nas áreas das tecnologias. Depois, voltei e criei o Departamento de Didáctica e Tecnologia Educativa; as tecnologias aplicadas à educação. Isso marcou-me. Hoje, o que faria? Alguns dos meus assistentes fizeram o doutoramento na área da inteligência artificial ao serviço da pedagogia. Portanto, seria isso que faria, hoje. Há muito a fazer na área da IA aplicada ao ensino. Toda a época teve as suas tecnologias. Sou um académico e sou crítico daquilo que está mal no ensino superior, mas sou um apaixonado pela vida académica.
O que está mal no ensino superior?
Para já, não me parece bem esta ideia de criar um país só de doutores e de engenheiros, com uma universidade em cada canto. Isso vai fazer com que a qualidade do ensino baixe, porque não há investigadores suficientes para um ensino e investigação rigorosos. À nossa volta, há uma universidade em Coimbra, com um pólo na Figueira. Há uma universidade em Leiria, há em Tomar, há em Santarém... Acho que se está a criar aquilo que o Brasil fez há uns anos. O Brasil tem imensas universidades, nomeadamente, particulares, e isso não se reflectiu no desenvolvimento do país, nem na qualidade dos seus licenciados. Nós queremos licenciados, doutorados, pessoas com qualidade e não a massificação. Porque a massificação impele cada instituição a fazer tudo para apanhar mais alunos, porque o financiamento é feito com o número de estudantes. O País precisa de muitos técnicos, técnicos intermédios de várias áreas, da agricultura, da construção civil e temos doutores a mais. Por que estamos a formar engenheiros que vão ganhar ordenado mínimo numa caixa de um supermercado? Não sou contra a criação da Universidade de Leiria Oeste. Essa até era a ideia do presidente da Comissão Instaladora do Politécnico de Leiria, Pereira de Melo, da Universidade de Aveiro, engenheiro de Informática e Telecomunicações. Ele via que podia nascer ali uma universidade que respondesse às necessidades locais, mas que não formasse só doutores e engenheiros. Quis desenvolver um “politécnico universitário”. A Universidade de Leiria e Oeste pode fazer coisas extraordinárias e, talvez das novas universidades, seja aquela que eu aprovaria, porque tem uma extensão muito grande e tem capacidades económicas e sociológicas interessantes. Tem o mar, tem a serra e tem dinheiro e uma ligação à ciência e tecnologia. É capaz de ajudar a desenvolver as indústrias locais e tem um reitor dinâmico.
O professor que ajudou a desenhar a Guia