Entrevista

D. Diamantino Antunes: Ordenação de homens casados “tornar-se-á uma necessidade”

6 mar 2020 12:12

Natural de Pombal, o bispo do Tete faz um retrato da situação social de Moçambique e fala ainda do celibato e do papel da mulher na Igreja.

Maria Anabela Silva

Está quase a cumprir um ano como bispo do Tete. Que balanço faz?

Tem sido uma experiência de amar e conhecer este território, que o Papa Francisco me confiou. Foi um tempo de conhecimento das comunidades e da realidade, um ano muito fecundo, mas também bastante sofrido. A província de Tete foi muito afectada pelo ciclone Idai, com a destruição de casas e perdas de vidas humanas.

Como é o cenário actual?

A pouco e pouco, vai-se fazendo a reconstrução. Na zona que inundou junto ao rio Zambeze, o governo proibiu a reconstrução de casas e a construção de novas, noutro local. Tem sido um processo longo. Noutras zonas, as pessoas já começaram a reerguer as habitações. A Igreja esteve presente, desde a primeira hora, no auxilio às populações, com a entrega de bens alimentares e de roupa e na reconstrução das casas e de estruturas como escolas e capelas.

A primeira experiência que teve em Moçambique aconteceu em 1992, no ano em que foi assinado o acordo geral de paz. Passados estes anos, o país ainda não conseguiu a normalização. Porquê?

Tive o privilégio de chegar a Moçambique num ano determinante, para aquilo que o país hoje é. Fui testemunha de um quase milagre. Pairavam no horizonte muitas interrogações, muitas dúvidas e medos sobre como é que o povo se conseguiria reconciliar consigo mesmo e com a sua história, marcada por uma guerra civil muito violenta. Havia a dúvida se as pessoas se conseguiriam perdoar e se as feridas seriam saradas.

A reconciliação aconteceu?

Conseguiu-se em Moçambique uma reconciliação verdadeira. As pessoas perdoaram-se. Não houve vingança. A consciência de que, naquele momento, pertencer a um povo era mais importante do que as divisões ideológicas ajudou à pacificação. Houve um grande sentido de responsabilidade da parte da população, sendo que a Igreja teve também um papel muito importante, seja na promoção do diálogo para alcançar o acordo de paz seja na conservação da própria paz e na formação de valores como a tolerância e a convivência democrática. Nos últimos anos, tem havido episódios de violência, com ataques e retaliações da parte das forças de segurança. Sempre que há eleições, como aconteceu em Outubro de 2019, há o ressurgimento do conflito. Esses ataques estão associados a um grupo dissidente da facção militar da Remano. Há um esforço para incluir esses jovens no exército nacional, de modo a que vejam as suas reivindicações satisfeitas.

Há ainda a situação de Cabo Delgado, no norte do país, onde se têm intensificado os ataques de grupos armados.

Aí, a situação é mais grave. Tem havido ataques a aldeias, com morte de pessoas e recurso a violências extrema. Desde 2017, já morreram cerca de 500 pessoas. São feitos por grupos de jovens, que as autoridades identificam como ligados ao fundamentalismo islâmico, que se radicalizaram. São ataques com motivações religiosas por detrás. Aquela é uma zona com grande influência islâmica. Grande parte da população é muçulmana. Há grupos que se radicalizaram, através de correntes ligadas ao extremismo islâmico, que vêm de fora e que inspiraram e mobilizam jovens para praticarem esse tipo de ataques.

Há receio desses ataques e extremismos alastrarem a outras regi&ot

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