Entrevista

Entrevista | Luís Lopes: “Algumas pessoas acordaram para uma problemática que não lhes dizia nada”

18 abr 2019 00:00

Incêndio em Pedrógão Grande despertou consciências e as pessoas perceberam que não estão seguras em lado algum

Leia aqui a primeira parte da entrevista.

Existe um Portugal antes de Pedrógão e pós-Pedrógão?
É inegável. O efeito de Pedrógão obrigou a que haja uma responsabilização de todos, não só de quem comanda incêndios ou toma decisões políticas. Toda a gente sentiu na pele aquilo que as pessoas sofreram. Não digo que este pós-Pedrógão seja um novo acordar, mas a verdade é que algumas pessoas acordaram para uma problemática que não lhes dizia nada. Só viam os incêndios na televisão. Em 2017 toda a gente foi afectada directa ou indirectamente. Temos que aproveitar esse efeito agora, daí a necessidade de manter isto bem vivo nas pessoas. Não é o sofrimento e a dor que sentiram, mas a necessidade que temos de nos comprometer com esta mudança e de contribuir para que isto não volte a acontecer.

Foi um abanar de consciências? Sim. Precisamente porque temos que ter consciência que isto pode acontecer a qualquer pessoa. Pensar que moro na cidade e que isto não me vai acontecer é complemente irreal. Houve turistas que morreram no incêndio. Se pensarmos, para o nosso território e para a nossa realidade, a maior ameaça que temos são os incêndios rurais.

A AGIF vai estar no teatro de operações no apoio à decisão. Na prática não irá criar alguns confrontos?
O nosso objectivo não é colocarmo-nos em bicos dos pés e dizer que somos os peritos, por isso é que estamos a ir ter com as pessoas para lhes explicar o que andamos a fazer e a desmistificar o que é a AGIF. Houve um concurso nacional e quem quis concorreu. Muitas destas pessoas já estão no sistema. O que pretendemos é dar ferramentas para alguém decidir. Nos dias de hoje temos muita informação que vai desde a cartografia, à meteorologia, ao histórico de incêndios, recursos e técnicas. Queremos juntar todo este conhecimento, filtrá-lo e disponibilizar a quem está a tomar decisões. As decisões passam a ter fundamentação e deixam de ser com base num processo meramente empírico ou sustentado nas comunicações que vêm do teatro de operações. Se as pessoas perceberem que se se apoiarem nos peritos só têm a lucrar, vai correr bem.

A AGIF não pretende apontar culpados na avaliação que fará, mas o que se está a fazer com Pedrógão. Faz sentido?
Não desta forma. Sempre que algo corre menos bem o que me interessa saber é por que é que correu menos bem, não é quem é que levou a que aquilo tivesse corrido menos bem. Isto aconteceu em incêndios com vítimas mortais. Queremos tirar conclusões para perceber qual a medida correctiva. Isto é que são lições aprendidas e isto é que é evolução. Estar mais preocupado em culpar alguém porque aconteceu o que aconteceu em Junho e Outubro não vai solucionar o problema. Se houver condenados, com pena suspensa ou efectiva, se calhar muitos de nós, que estamos há muitos anos nestas funções, começamos a pensar três ou quatro vezes em assumi-las. Claro que temos de estar capacitados, ser responsáveis, dar resposta e cumprir, e devemos ser avaliados por isso. Mas não pode ser uma caça às bruxas desenfreada, destruindo a vida de pessoas que estão há 20, 30 e 40 anos neste sistema, a dar tudo de si para proteger as pessoas que, infelizmente nesses incêndios, acabaram por falecer. Devemos perceber por que é que o sistema falhou, mas não por que é que o indivíduo falhou, porque na prática o sistema é que é responsável  

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