Entrevista

Entrevista | Manuel Aires Mateus: "O que nos interessa, mais do que tudo, é a condição identitária de cada projecto"

5 mai 2018 00:00

Prémio Pessoa 2017 defende que "a arquitectura tem de ser feita em risco".

Maria Anabela Silva

Fala sempre no plural, como se Manuel e Francisco Aires Mateus fossem, em termos arquitectónico, um só. Como funciona esta dupla?

Até determinado momento, trabalhávamos no mesmo espaço físico. Quando a equipa passou a ser maior, resolvemos separar-nos em dois espaços. Isso coincidiu também com o momento em que começámos a dar aulas juntos. Estabelecemos uma plataforma de discussão, que tem a ver com ideias, projectos e ensino. Temos hoje uma investigação conjunta, com desenvolvimentos que são feitos mais cá ou mais lá.

O curador Nuno Grande referiu- -se à vossa dupla como uma mistura de sensibilidade e bom senso. Com qual dos lados se identifica mais?

A sensibilidade é bom senso e bom senso é sensibilidade. Revejo-me numa boa relação entre os dois. Em arquitectura são dois conceitos que andam muito a par. São muito unos. O bom senso é fundamental em arquitectura. São processos muito longos, complexos, que envolvem imensa gente e muitos meios. A sensibilidade é uma gestão dessa condição. Para a maior parte das famílias, a casa é o maior investimento que fazem na vida. Isso exige imenso bom senso e uma sensibilidade muito grande ao problema. O mesmo se aplica quando pensamos na cidade. A cidade é o lugar de todos. Exige muito bom senso e sensibilidade.

Trabalhou vários anos com Gonçalo Byrne. Que ensinamentos lhe ficaram desse tempo?

A minha grande formação foi feita ali. Gonçalo Byrne é o homem do saber. Um conhecedor. Tem uma biblioteca fabulosa e uma memória prodigiosa e invejável. A memória é uma coisa muito importante, que temos de aprender a saber construir. A memória verdadeira, aquela que nos funda. E o Gonçalo tem essa memória. Foi o homem que me despertou para o problema do lugar, da história, da ideia da verdade do projecto em cada projecto, uma série de coisas que se tornaram para nós axiomas e fundamentais. Além de ser a pessoa com quem aprendemos o ' beabá' e as coisas técnicas.

Quais são as suas referências na arquitectura?

Vivos, refiro o Siza [Vieira], que é o homem da arquitectura sensível, da surpresa, do movimento no espaço, e [Peter] Zumthor que é o homem da arquitectura construída, da ideia da materialidade, com tudo o que isso envolve. Entre os mortos, há uma série de arquitectos que nos tocam muito, como Borromini, barroco, da liberdade entre interior e exterior, da expressão, da ideia da espessura da própria materialidade, da construção do limite como valor único, da gigantesca possibilidade da liberdade. Sempre foi uma referência para nós. Há também Palladio, Schinkel ou Mies, que são uma espécie de poética matemática.

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