Entrevista

Francisco Marques: "Não consigo perceber onde está a vantagem para a região em ter um aeroporto em Monte Real"

2 jan 2020 10:00

O presidente da Adlei critica a falta de participação cívica dos cidadãos nas suas comunidades e a ausência de planos autárquicos de futuro para o concelho

Francisco Marques, presidente da Adlei
Ricardo Graça
Jacinto Silva Duro

Quais são os projectos da Associação para o Desenvolvimento de Leiria (Adlei) prioritários neste momento?

Estamos a recuperar temas importantes para o desenvolvimento do concelho, com um grande foco nas questões do Ambiente, da Mobilidade e do Urbanismo. Temos uma grande preocupação com os efluentes e resíduos urbanos. Há dias, promovemos um evento sobre ocupação do território. Foi virado para o diagnóstico e análise, mais do que para o debate de soluções, mas foi uma primeira iniciativa positiva, que acrescentou informação a quem não está dentro do meio e gostaria de fazer um juízo acerca das políticas. Na próxima iniciativa, pensamos abordar a Mobilidade e Planeamento Urbano, numa perspectiva já mais concreta e não numa análise global das dinâmicas territoriais. Queremos também abordar a parte ambiental, que tem logo à cabeça, a bacia hidrográfica do Lis. A acção da Adlei tem que ver com debate e formação de opinião, é uma intervenção na área cívica, pois não queremos ter a veleidade de ser uma associação que entra na parte executiva, mas queremos, de algum modo, tornar a opinião pública mais esclarecida, de modo a influenciar as decisões que se tomam.

E a comunidade participa?

As pessoas sentem uma certa impotência. O facto de opinarem sobre um assunto, acaba por não ter grande influência no resultado. A maioria absoluta na Câmara de Leiria corta o que possa ser uma oposição ou opinião que tenham. Por isso, afastam-se... a participação em sociedade, em Leiria, é virada para o aspecto lúdico. As pessoas preocupam-se com os seus problemas pessoais, pois há um certo individualismo e materialismo, e depois, quando abordam a participação social, fazem-no na área lúdica; os eventos, as festas… Se há uma iniciativa de carácter cívico, cultural ou de debate, a maior parte acha isso enfadonho e tem outras prioridades. Num momento, quando há uma hegemonia partidária de um partido e a Oposição, mais ou menos eficaz, não consegue ter tanta influência, a participação cívica, se fosse efectiva, teria uma importância acrescida que iria compensar o que não se consegue fazer a nível partidário. É lamentável que as pessoas se motivem por questões de ordem internacional, que estão super longe e nas quais não têm qualquer influência e, depois, aqui, nas suas comunidades, onde a sua opinião poderia ter mais impacto, afastam-se. Alguns até terão receio de represálias.

Quais são os problemas específicos do concelho?

O maior problema de Leiria é a ausência de visão estratégica a longo ou médio prazo. Temos uma Administração que é reactiva e não planeadora. É claro que um plano dificilmente será adoptado a 100% e tem de ser relativamente dinâmico para se ir adaptando às realidades que vão surgindo… Mas a inexistência de um plano é terrível, porque ficamos entregues à discricionariedade pura e simples. Fazem-se coisas desgarradas de tudo o resto. Há um grande problema ambiental de poluição na bacia hidrográfica do Lis, mas também poderemos ter um grave problema com a qualidade do ar, com a qualidade da água que bebemos. E não há estratégias a longo prazo para se orientarem políticas e resolver problemas...

O Pelouro do Ambiente deveria ter maior importância no Executivo camarário?

Não sei qual é a importância que tem, mas deveria ser grande e estar devidamente articulado com o resto das obras que a autarquia se propõe fazer. Não me parece que seja isso que acontece. A política de planeamento urbano e de ocupação de território da câmara há muito tempo que é reactiva. No último evento que fizemos sobre este tema, o arquitecto Moreira de Figueiredo, que foi um dos oradores convidados, disse que os loteamentos são "o cancro da cidade". Como não há uma política estruturada e com estratégia, ficamos à mercê da iniciativa privada, que é muito meritória, mas que não tem a capacidade de planear todo um território, de o desenhar e decidir quais serão as medidas de futuro. O resultado são estas várias ilhas descosidas que são uma espécie de "cancro".

Um dos grandes problemas de Leiria é a mobilidade. Há cada vez mais e maiores filas automóveis. É difícil estacionar e é praticamente impossível a deslocação a pé ou de bicicleta a determinadas zonas, que se tornaram ilhas, rodeadas de vias rápidas por todos os lados.

Para nos deslocarmos em bicicleta ou noutro modo suave de transporte, não basta ter vias estruturantes. O passeio do Polis, por exemplo, é estruturante. É uma espécie de espinha dorsal, mas temos de conseguir penetrar no resto do território a partir dali. É preciso que as pessoas consigam entrar no resto da cidade, sem andarem à bulha com os carros. Quando o JORNAL DE LEIRIA abordou o Plano de Mobilidade de Leiria, referiu que tinha sido uma "oportunidade adiada" ou "perdida". Só o foi porque a Câmara de Leiria o quis. O Plano foi apresentado e pecava pelo radicalismo de certas soluções; criava bloqueios à circulação dos cidadãos para os obrigar a optar por outros meios de transporte, mas sem criar condições prévias para que isso fosse cómodo e funcional. Por isso, sofreu grande contestação. Estive num grupo de trabalho, constituído no âmbito da Assembleia Municipal com a participação de cidadãos, que se dedicou a analisá-lo e a propor alternativas. Limámos uma série de arestas e chegou-se a um compromisso que permitiria à autarquia pegar nele, adoptar essas melhorias e seguir com ele. Mas não. A Câmara de Leiria pôs na prateleira o Plano de Mobilidade. Só não avançou porque não quis. E porquê? Porque arranjaram uma alternativa para aceder aos fundos comunitários para fazer as obras que pretendiam… Obras pensadas de forma discricionária e avulsa, sem ser em base de uma estratégia para a cidade. No momento em que conseguiram aceder aos fundos por outra via, esqueceram o Plano de Mobilidade que, desde o primeiro momento, se percebeu que tinha sido encomendado para viabilizar essas obras. Ainda assim, apesar da inversão das prioridades, o trabalho estava feito, tinha aspectos interessantes e com as arestas limadas e soluções mais consensuais, deveria ter sido aplicado. Há dias, o presidente da Câmara recebeu a Adlei e disse que essa - e uma série de outras obras -, no resto do mandato, já não eram prioridades. A prioridade, percebeu-se, será fazer duas ou três obras que lhe darão acesso aos fundos comunitários.

Dentro de uma lógica regional, a Linha do Oeste poderia ser um eixo de ligação com a Marinha Grande e Caldas da Rainha, permitindo a quem trabalha e estuda nestas cidades um meio de transporte prático e barato?

Um plano conjugado entre cidades? Claramente. A linha deveria ser requalificada. Em termos de mobilidade, uma ligação regional é fundamental… Até para o acesso a Lisboa. Requalificada, electrificada, com horários e ligações, tinha potencial para permitir deslocações com o mesmo tempo ou mais rápido do que pela rodovia, com maior conforto, menor custo ambiental e sem problemas de estacionamento. Durante anos não interessou investir na ferrovia e agora o atraso é difícil de recuperar. Em termos regionais é mais interessante a requalificação da Linha do Oeste do que a Base Aérea de Monte Real abrir-se ao tráfego civil.

Mas é um investimento extremamente mais caro.

É mais caro, mas é mais realista, mais útil, mais amigo do ambiente. Andamos todos preocupados com o fumo dos automóveis e cada vez que um avião descola já não há problema?

Acha que a população de Monte Real, caso o aeroporto fosse lá criado, descobriria que lhe deram uma maçã envenenada?

Claramente. Uma coisa é os F 16 levantarem de lá, de vez em quando. Outra é ter tráfego aéreo permanente. Não consigo perceber onde está a vantagem para a região. Não estou a ver a possibilidade de utilização para transporte e exportação de mercadorias e, em termos turísticos, o nosso território é pequeno. Na Direcção da Adlei, não nos paree prioritário e somos críticos, em relação a ser essa "a" prioridade. Imagine-se Leiria invadida por milhares de turistas. Não temos infraestruturas; não temos esgotos, não temos camas, não temos Plano de Mobilidade para as pessoas acederem e saírem da cidade.

A candidatura de Leiria a Capital Europeia da Cultura poderá trazer qualidade de vida a Leiria?

Não me parece. É positivo, de facto, termos acesso a oferta cultural mais interessante, mas é um objectivo que poderia ser alcançado por outro meio. A candidatura a Capital Europeia da Cultura é um fait divers, porque Leiria é uma cidade que, há anos, não tem uma política estruturada a diferentes níveis para ser atractiva e apresentar algo diferente das outras cidades. Para sermos Capital da Cultura, ter-se-ia de ter preservado património histórico, criado uma dinâmica das partes novas com as antigas, para serem o palco físico daquilo que se poderia realizar. Não estou a ver acontecerem fenómenos de melhoria na oferta cultural fora daquilo que seria expectável. Temos, ao nível da música e talvez do teatro, apostas interessantes, que aconteceriam de qualquer modo, mesmo sem a candidatura. Também não me parece que a autarquia se deva substituir aos agentes culturais. Deve ser um elemento facilitador em vez de tomar a iniciativa. A função primordial de uma autarquia deve ser outra. Garantida essa função primordial, poderá avançar para outros sectores. A iniciativa dos diferentes agentes culturais é mais interessante do que o modelo paternalista da Câmara a promover e a tomar iniciativa. Tenho pena de que a actuação da Câmara acrescente um certo mercantilismo às iniciativas e que as afaste da sua génese. Estou-me a lembrar, por exemplo, do festival A Porta, que começou como algo que era das pessoas e, hoje, já tem um envolvimento institucional que leva ao aparecimento de patrocínios menos simpáticos e à ocupação menos interessante e abusiva do espaço público.

Isso acontece com vários eventos e não apenas com esse.

Acontece de forma constante. Tenho visto, desde há anos, a apropriação do espaço público como se fosse uma espécie de feira, onde os passeios e os jardins são forrados com barracas, barraquinhas e automóveis. Os concessionários automóveis acabaram com os stands no centro da cidade, mas ocupam tudo o que são passeios com a promoção de novos modelos. É absurdo e insultuoso.

Qual é o futuro do comércio local, quando o LeiriaShopping é uma espécie de eucalipto e está para breve a abertura de uma nova unidade comercial junto à Rotunda de D. Dinis?

A solução é a transformação do comércio tradicional e é a criação de condições para que existam habitantes. Parte do comércio tradicional seria reconvertido para a satisfação das necessidades dessas pessoas, especialmente, num momento em que a parte velha da cidade está a ter uma grande demanda por parte de novos habitantes que saem da periferia e querem viver no centro, para estarem mais próximos a serviços e aos eventos culturais e não querem andar de automóvel. E ali não pode haver habitantes apenas de um único estrato social ou etário. Essa diversidade é saudável, traz vida à cidade e permitiria requalificar algum comércio de rua, fora da lógica de concorrência com aquilo que os shoppings já oferecem, mas com alternativas. Quem mora na rua direita e precisa de comprar alguma coisa, tendo mercearias e lojas, não irá pegar num carro, que nem sequer vai estar perto de casa, mas num estacionamento nas proximidades, para ir ao shopping. Não são os eventos que se fazem na cidade para trazer animação que vão resolver isto. Até porque, normalmente eles trazem outros comerciantes ambulantes, que fazem concorrência aos que estão na cidade. Até me admiro como não há uma revolução dos comerciantes de Leiria contra esse fenómeno. Cada vez que vem a feira medieval, são só

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