Entrevista

Frédéric da Cruz Pires: “Como é que 70% dos apoios para criação vão para Lisboa?”

31 dez 2020 10:31

Director artístico do Leirena Teatro diz que "o teatro é para as pessoas, não é para o umbigo de alguns", recorda as dificuldades provocadas pela pandemia e questiona a atribuição de apoios do Governo

Frédéric da Cruz Pires: "Há sempre uns que dizem que temos de nos "reinventar", mas a verdade é que os artistas reinventam-se todos os dias. (...) O "músculo da reinvenção" é algo que já exercitamos há muitos anos!"
Ricardo Graça
Jacinto Silva Duro

O Leirena Teatro - Companhia de Teatro de Leiria, criado há cerca de dez anos, conta com um reconhecido trabalho com jovens, idosos e crianças especiais. Fez parte dos objectivos desde a fundação do grupo?
Além de uma gestão artística, para sobreviver uma companhia de teatro tem de ter um fluxo financeiro. Começámos, por isso, com turmas de teatro para crianças e jovens, além dos nossos espectáculos, que estão ligados à identidade local, para que as pessoas se interessem e identifiquem com o que estão a ver. Arrancámos com o Tudo Baila em Seu Redor, criado a partir do Cancioneiro de Mar e Serra com o contributo de muitas pessoas que entrevistámos e a quem convidávamos a assistir. Fizemos uma digressão regional pelas freguesias, e havia sítios onde tínhamos apenas cinco ou dez pessoas a assistir, mas não desistimos e começou a aparecer mais público. Percebemos que tínhamos de crescer e quisemos desenvolver um projecto de teatro e comunidade. Foi assim que nasceu o festival Novos Ventos, que é um projecto comunitário. Durante uma semana, vamos para uma freguesia e falamos com todo o associativismo local, catequeses, escolas, escuteiros para criar cinco grupos que montam cinco espectáculos, que são apresentados no domingo seguinte. Os pais, avós e familiares vão para ver os filhos, ficam para ver os outros grupos e, ao final do dia, após o jantar, regressam todos para o último espectáculo profissional, com companhias como o Chapitô, A Comuna ou o Teatro Regional da Serra de Montemuro... criamos laços e afectos e, hoje, as pessoas das freguesias já vêem o Novos Ventos como um festival que lhes pertence. O teatro tem um lado social. O teatro é para as pessoas, não é para o umbigo de alguns, não é para um nicho. Inspirados por este trabalho e pelo que temos com as trupes de jovens, iniciámos uma colaboração com a APPDA, no projecto Arte e Autismo, e com a Cercilei, Oasis, APPDA, APPC, desenvolvemos a iniciativa Arte e Terapia.

Os utentes participam nesses projectos com trupes?
Temos um grupo. São pessoas com um potencial enorme. Claro que têm as suas problemáticas e grandes virtudes. Podem não saber nada, mas estão connosco, querem ajudar com carinho e afecto. Quem está, hoje, disposto a dar a mão a alguém, sem criticar e rir do erro do outro? Quando vamos a uma escola, se um aluno se engana, a turma ri-se do erro. Mas estas pessoas não riem. São solidárias e sabem que também têm dificuldades. Há lá miúdos com uma criatividade tremenda! Não podemos chegar com uma atitude de: "vamos fazer teatro inclusivo e integrálos"... qual quê!? Eles é que nos integraram. Nós é que aprendemos com eles.

"(...) Há sempre uns que dizem que temos de nos "reinventar", mas a verdade é que os artistas reinventam-se todos os dias. (...) O "músculo da reinvenção" é algo que já exercitamos há muitos anos!"
Frédéric da Cruz Pires

Em 2020, como foi fazer teatro?
Até agora, foi e é desafiante. Quando a pandemia iniciou, em Março, vimos tudo cancelado. Todas as apresentações, trupes e festivais. Estávamos a três de dias de ir à Madeira estrear o espectáculo A Paz, para o qual já tínhamos uma digressão marcada! De repente, parou tudo. Tínhamos seis ordenados para pagar, seguros, impostos e um grande berbicacho nas mãos. O pé-de-meia iria durar talvez quatro meses... Nestas ocasiões, há sempre uns que dizem que temos e nos "reinventar", mas a verdade é que os artistas reinventam- se todos os dias. O "músculo da reinvenção" é algo que já exercitamos há muitos anos! Entre estreias, digressões, festivais e espectáculos, a programação era constante há quatro anos. A paragem permitiu reflectir a produção da companhia. Percebi que as casas cheias e a proximidade acabaram.

Nesse contexto, surgiu o Estado de Excepção.
Tínhamos a verba prevista para o Novos Ventos, tínhamos uma carrinha, tínhamos profissionais, equipamento... tínhamos tudo para levar a cultura às ruas, às varandas, às IPSS. Transformámos a carrinha num palco, falámos com os presidentes de Junta e com a autarquia de Leiria e apresentámos o projecto. A Câmara de Leiria foi das poucas que manteve e deu um apoio fundamental às estruturas artísticas durante o confinamento e até depois dele. Também entrámos em contacto com todas as estruturas artísticas profissionais do distrito e da Rede Cultura 2027. Explicámos que tínhamos a verba do Novos Ventos e que, como seria impossível realizá-lo, iríamos dividi- la em 50 espectáculos onde gostaríamos que participassem. Partilhámos com freelancers e com estruturas, criaram-se amizades. Até tínhamos previsto cinema nas aldeias, mas acabou por não acontecer porque nos candidatámos ao Não Brinques com o Fogo, iniciativa da DRCC e da Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais, para criar a performance Sob a Terra. O orçamento eram qu

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