Entrevista

Helder Pedro: "Portugal tem cerca de um milhão de automóveis com mais de 20 anos"

7 dez 2019 08:00

Secretário-geral da Associação do Comércio Automóvel de Portugal (ACAP) pede com urgência o regresso do programa de abate de veículos em fim de vida e alerta para o facto de haver cada vez mais carros envelhecidos nas estradas

Helder Barata Pedro, secretário-geral da ACAP
DR
Jacinto Silva Duro

Como está o panorama do mercado nacional, agora que estamos a cerca de mês e meio do final do ano?

No mês de Outubro de 2019 foram matriculados em Portugal 15.649 automóveis ligeiros de passageiros novos, ou seja, mais 12,2 por cento do que no mês homólogo do ano anterior. Nos dez meses de 2019, as matrículas de veículos ligeiros de passageiros totalizaram 189.673 unidades, o que se traduziu numa variação negativa de 3,5 por cento relativamente a período homólogo de 2018. Podemos afirmar que a variação percentual do mercado registada em Outubro (+12,2%) não reflecte a evolução real do mercado, pois compara com um valor homólogo do ano anterior, anormalmente baixo, devido à introdução do ciclo de ensaios WLTP [Worldwide Harmonized Light Vehicles Test, os novos testes exigidos pela União Europeia para um controlo fidedigno de emissões e de consumos]. Já a variação negativa observada no período acumulado reflecte o verdadeiro momento do mercado e que consiste num abrandamento.

O sector dos moldes e plásticos, um dos mais importantes clusters da indústria nacional, vive um tempo de incerteza semelhante ao que existe no sector automóvel, devido à indefinição sobre o que o futuro será em termos de propulsão eléctrica ou convencional. Fazendo um exercício de “pré-vidência”, acredita que os consumidores vão, a médio prazo, optar por uma das soluções e permitir aos fabricantes ultrapassar esta indefinição?

O Parlamento Europeu e a Comissão aprovaram, no final do ano passado, metas muito ambiciosas para a redução das emissões de dióxido de carbono dos veículos a colocar no mercado em 2030 e 2025. Estas metas levam os construtores a ter, cada vez mais, uma oferta maior de veículos eléctricos ou híbridos plug-in. Mas o mercado continuará a passar pelos motores de combustões internas, de baixas emissões conforme prevêem as normas Euro.

Para onde caminharemos, no futuro, com a adopção de carros autónomos? Para menos automóveis na estrada e maior partilha? Já temos a mentalidade certa para isso?

A Volvo, por exemplo, parece estar já a apostar nesse capítulo. O car-sharing e a condução autónoma poderão transformar radicalmente a forma como o consumidor se relaciona com o automóvel. Por exemplo, neste último caso, existem visões futurísticas que revelam veículos sem condutor, com emissões zero, a efectuar entregas de mercadorias ou a levar pessoas aos seus empregos. Poderemos estar no limiar de uma revolução tecnológica que gerará novos serviços e novas oportunidades de negócio, redefinindo os conceitos de posse e de propriedade de um veículo o que, certamente, conduzirá as empresas do sector a novos desafios. Sem dúvida que o car-sharing e a condução autónoma são dois dos principais impulsionadores tecnológicos da indústria automóvel na próxima década.

A consciência ecológica é algo que está presente na mente dos portugueses, quando adquirem uma nova viatura?

Não existem estudos científicos que nos permitam concluir pela afirmativa, no entanto, nota-se uma tendência crescente da parte dos clientes para se preocuparem com os problemas ambientais.

A conversão e adopção de valências de electrificação nas oficinas e nos serviços de após-venda, afinal, foi fácil?

As oficinas e os serviços após-venda têm vindo, nos últimos anos, a modernizar-se. A generalidade das marcas de automóveis está hoje preparada para a assistência de veículos eléctricos em todo o País. As operações e sistemas logísticos tiveram, igualmente, um desenvolvimento extraordinário, o que permite que as oficinas tenham cada vez menos armazenamento de peças. O cliente deixa o seu carro de manhã na oficina, as peças são colocadas num sistema de encomendas online, o distribuidor entrega-as de manhã e o cliente levanta o carro ao fim da tarde, com o serviço efectuado e as peças incorporadas na sua viatura.

O parque
automóvel
nacional já possui
uma idade média
de quase 13 anos,
encontrando-se
bastante
envelhecido
Helder Pedro

Está cientificamente provado que o gasóleo polui menos do que a gasolina? Por que razão há um estigma tão grande em relação a esta tecnologia?

O que se verifica é que os veículos a diesel emitem menos dióxido de carbono do que os veículos a gasolina. E, desde a assinatura do Protocolo de Quioto e dos Acordos de Paris, que a redução desse gás que provoca o efeito de estufa é o principal objectivo. Na União Europeia, espaço onde estamos integrados, também as metas fixadas, que referi anteriormente referi, são baseadas no dióxido de carono. Neste caso, os veículos a diesel são importantes para o cumprimento daquelas metas, porque emitem menos CO2. Aliás, a recente transferência de vendas dos veículos diesel para os veículos a gasolina tem levado ao aumento das emissões médias de carbono, quer na Europa quer em Portugal.

A ACAP relançou, recentemente, o seu programa de credibilização de veículos usados com o objectivo de "combater a proliferação de práticas ilegais" e de aumentar a segurança de quem compra...

A ACAP relançou o seu Programa Usado a 17 de Outubro, num momento em que as vendas de veículos usados representam cerca de 2,5 vezes do mercado de veículos em Portugal. Com este programa temos captado novos parceiros e oferecido mais vantagens aos clientes destes veículos. O principal objectivo do Programa Usado ACAP é, essencialmente, a necessidade de combater a proliferação de práticas ilegais, de concorrência desleal, que denigrem a imagem pública do comércio profissional e colocam em risco os direitos do consumidor. Sabemos que está a ser muito bem acolhido quer pelas empresas do sector, quer os grupos de retalho automóvel, quer as empresas não integradas em nenhum g

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