Entrevista
Joaquim Ruivo: “Falta uma política claramente vocacionada para a defesa do património”
4 abr 2025 09:56
De saída do cargo de director do Mosteiro da Batalha, por aposentação, propõe uma entidade pública empresarial e mais autonomia na gestão (Fotografia de Ricardo Graça)
Filho e neto de professores, casado com uma professora, Joaquim Ruivo tem 66 anos e reside na freguesia da Caranguejeira, concelho de Leiria, numa casa construída pela família há várias gerações.
Licenciado em História, foi professor do ensino básico e secundário antes de, há 12 anos, se tornar director do Mosteiro da Batalha. Deixou o cargo a 31 de Março, por aposentação. E já tem planos: concluir a pós-graduação e dedicar mais tempo a algumas paixões, como a agricultura, a marcenaria e a relojoaria.
O percurso do presidente da Assembleia Municipal da Batalha (e membro dos órgãos sociais da ADLEI – Associação para o Desenvolvimento de Leiria) inclui, também, uma passagem de 16 meses pelas forças especiais, na década de 80. “Foi um curso que ficou na história dos Comandos”, assinala. Dos 20 formandos, 17 recusaram a boina, em “contestação ao tipo de recruta” a que eram sujeitos.
Que mistérios ainda se escondem no Mosteiro da Batalha? O que há para esclarecer ou estudar?
Quando chegamos pensamos que o Mosteiro está mais que estudado e descoberto, e depois começamos a verificar que, afinal, não está. Há muita coisa a estudar. E, na realidade, o Mosteiro durante 150 anos foi o grande estaleiro de inovação artística e arquitectónica em Portugal. Um exemplo para mim foi a Capela do Fundador. Olhamos e vemos vestígios de pinturas. Ora, só em 2016 um grupo de investigadores, coordenado pela professora Joana Ramôa, decidiu investigar a fundo, numa equipa multidisciplinar, essas pinturas. Concluímos que a maioria das abóbadas e todos os túmulos foram originalmente pintados e que a cor não era só dada pelos vitrais.
O Mosteiro é hoje um monumento mais estudado?
Sem dúvida. E vou dar-lhe outros dois exemplos. O túmulo conjunto de D. João e D. Filipa de Lencastre, na Capela do Fundador. Esse túmulo contém epígrafes. Sendo um dos túmulos mais importantes da nossa tumulária medieval, não se encontrava uma tradução completa e crítica do latim para o português dessas epígrafes nem estava feito o seu estudo epigráfico. E, um dos projectos que logo passado alguns anos [após tomar posse] lancei, foi convidar especialistas a fazer este estudo, que está pronto a publicar. Um grande desconhecimento de todo o conjunto edificado levou-me a orientar muitos dos meus esforços, enfim, não tanto para a área dos estudos artísticos e arquitectónicos, mas mais para a área das geociências e das engenharias. E daí, um primeiro passo, um encontro com o departamento de engenharia do IPL [Politécnico de Leiria] e logo a seguir com o departamento de geociências da Universidade de Aveiro e o departamento de engenharia da mesma universidade. Foi feito aqui um levantamento geofísico exaustivo e isto permitiu-nos confirmar que o Mosteiro está assente em duas zonas geologicamente diferenciadas e identificar com precisão o local do primeiro sepultamento de D. Filipa de Lencastre.
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