Entrevista

José Pimenta Machado: “Precisamos de um PPR para o litoral, ou seja, prevenção, protecção e recuo planeado”

4 jun 2026 08:00

O presidente da Agência Portuguesa do Ambiente diz que está a ser feita “uma corrida contra o tempo” para minimizar o impacto das tempestades na época balnear e que “as barragens salvaram o País de uma tragédia maior”

Maria Anabela Silva

As praias estão preparadas para o início da época balnear?
O comboio de tempestades que afectou o País, em particular o nosso litoral, levou a areia das praias. Mas, em alguma delas, a natureza está a fazer o seu trabalho de repor a areia que retirou. Foi isso que aconteceu em São Pedro Moel, onde o areal está extenso. Este Verão, haverá mais espaço para as pessoas estenderem a toalha em São Pedro de Moel. Quero acreditar que haverá boas condições para a época balnear. A tempestade Hércules, em 2014, provocou danos muito impactantes no nosso litoral, mas, este ano, foi mais difícil. Entre Janeiro e Abril, todo o litoral, de Caminha até Vila Real de Santo António, sofreu com este comboio de tempestades. Temos cerca de 200 locais danificados pela acção do temporal. Já finalizámos um conjunto de empreitadas, mas estamos numa corrida contra o tempo no sentido de minimizar o impacto desses danos na época balnear que está à porta.

Que intervenções estão a ser feitas?
Recuperação de muros que colapsaram, de acessos à praia, de passadiços e de dunas e colocação de areia nas praias. O que é natural é ter areia na praia, não uma muralha de pedra. Precisamos também de reforçar o cordão dunar. É ele que nos protege da erosão. A região Centro é uma das mais vulneráveis do País à erosão. Desde os anos 50, Portugal perdeu cerca de 14 quilómetros quadrados [de costa] para o mar, o equivalente a 1.400 campos de futebol. Já não podemos fazer nada para recuperar esse território. Nas zonas mais vulneráveis estamos a fazer alimentações de areia, a recuperar estruturas de defesa e de protecção costeira, como esporões e protecções aderentes [estruturas longitudinais]. Ovar foi o concelho mais atingido, com maior reporte de danos, mas toda a zona Centro foi muito fustigada por estas intempéries, incluindo Pedrógão, São Pedro de Moel e Vieira

A tempestade agravou algumas situações, mas a erosão costeira não é um problema novo. Como referiu, desde os anos 50, perdemos mais de 14 Km2 para o mar. O que é mais prioritário fazer para tentar travar este avanço?
Precisamos de um PPR para o litoral. Ou seja, prevenção, protecção e recuo planeado. O primeiro ‘P’ é de prevenção, que exige muito ordenamento do território, não autorizando novas construções em áreas de risco. Temos feito isso com os POOC [Planos de Ordenamento da Orla Costeira]. Há um litoral antes de 1999 e um depois. Estes instrumentos de ordenamento trouxeram melhorias significativas. Temos a memória curta. Antes dos POOC, tínhamos construções abusivas, água de má qualidade e maus apoios de praia. Ainda há problemas que persistem, mas, apesar de tudo, temos um litoral bem ordenado, com bons equipamentos de praia e água de excelência. Portugal é, em termos proporcionais, o país do mundo com maior número de bandeiras azuis. Em números absolutos, somos o segundo em praias fluviais e o quinto em praias costeiras. Os POOC foram também fundamentais na contenção da pressão sobre o litoral e criaram condições para acesso a fundos comunitários, permitindo-nos ter um instrumento de financiamento para alavancar os investimentos necessários.

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