Entrevista

Licínio de Carvalho: “O medo foi muito difícil de gerir”

11 jun 2020 11:04

O presidente do Conselho de Administração do Centro Hospitalar de Leiria fala dos três meses “inesquecíveis” de combate à Covid-19 e reconhece que, apesar do reforço que tem sido conseguido, a instituição precisa de mais 100 especialistas.

Maria Anabela Silva

O novo Conselho de Administração do Centro Hospitalar de Leiria (CHL) foi nomeado no final de Janeiro e passadas poucas semanas já estava a enfrentar a Covid-19. Quais têm sido as principais dificuldades?
No princípio de Fevereiro, nomeámos uma task force para preparar as respostas à pandemia que se avizinhava. Fizemos um excelente trabalho. Felizmente, a sorte também passou para aqui. Mas a sorte dá trabalho. Houve uma mobilização enorme de todos os serviços. Fizemos muitas alterações, tivemos muitas incertezas e tomámos decisões que, provavelmente, se fosse hoje não tomaríamos, mas isso faz parte da vida. Foram três meses inesquecíveis. O lidar com as dúvidas e os receios que tínhamos foi um dos factores que fez deste um período inesquecível. O saber como adaptar a capacidade de resposta do CHL, não só para tratar os doentes Covid, mas também para manter a porta aberta a todos os outros doentes que continuaram a precisar de nós e que fizeram as suas cirurgias, consultas, tratamentos e sessões de hospital de dia. O primeiro grande desafio foi o de prepararmos a instituição, as equipas e os serviços, para dar resposta ao que aí vinha. O medo foi um factor muito difícil de gerir. Não podemos esquecer que cerca de 10% dos infectados com Covid-19 em Portugal são profissionais de saú de. A mobilização, a entrega e o esforço incondicionais de todos os profissionais e de todos os serviços para darmos a melhor resposta possível ao desafio, torna inesquecível a minha passagem por este centro hospitalar. As pessoas passaram a privilegiar o essencial em vez do acessório. Têm todos o direito e o dever de estarem orgulhosos, porque prestaram uma excelente resposta.

Como sentiu a reacção da sociedade civil no apoio ao hospital?
Houve, de facto, um grande apoio, que se pode dividir em duas partes: a prontidão da comunidade em ajudar, das mais diversas formas, e o comportamento dos cidadãos, seguindo as recomendações e revelando uma grande compreensão pelas novas regras e privações, como o não poder visitar os seus familiares ou acompanhar o parto. A população teve um comportamento exemplar. O apoio que a comunidade demonstrou ao hospital, desde o início da pandemia, foi emocionante. Foram cerca de 200 as entidades públicas, privadas ou sociais, ligadas às autarquias, à indústria, ao futebol, ao transporte, a fornecedores e a tantas outras áreas, que fizeram donativos, em dinheiro ou em material, que atingiram várias centenas de milhares de euros. Recebemos da comunidade um grande conforto. Todos os municípios da nossa região fizeram uma oferta em numerário para a utilizarmos onde fosse necessário e expressaram a disponibilidade para ajudar no que fosse preciso. Foi um momento ímpar. A mensagem que recebemos da comunidade, desde a primeira hora, foi a de que estava connosco para tudo o que precisássemos.

 

Em destaque

[O mais difícil] Foi o gerir um clima absolutamente inseguro e incerto. As imagens do que se estava a passar em Itália ou em Espanha eram aterrorizadoras. Punham-nos a pensar: 'E se acontecer aqui?'.

O que foi o mais difícil e mais marcante?
Foi o gerir um clima absolutamente inseguro e incerto. As imagens do que se estava a passar em Itália ou em Espanha eram aterrorizadoras. Punham-nos a pensar: 'E se acontecer aqui?'.

Houve algum momento em que tenha pensado que isso podia acontecer?
Honestamente, não. A reacção da população, na aceitação das regras e orientações que iam sendo emanadas, transmitia-nos alguma tranquilidade. Eu sentia isso quando andava na rua. As pessoas não circulavam e, quando o faziam, tinham cuidado. Mas a incerteza estava sempre presente. Passámos dois ou três meses muito difíceis. Questionávamos se o que estávam

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