Entrevista

Luciano Gonçalves: “Acredito que a arbitragem feminina vai ser a salvação da arbitragem”

21 set 2023 10:30

O presidente da APAF aponta a insegurança e a falta de árbitros como os maiores desafios da arbitragem em Portugal, e encara com bons olhos o crescimento da arbitragem feminina

Luciano Gonçalves é natural de Alcanadas, Batalha
Ricardo Graça

Que balanço faz destes sete anos na presidência da Associação Portuguesa de Árbitros de Futebol (APAF)?

Um balanço positivo. É sempre difícil quando falamos de arbitragem dizermos que o balanço é positivo. Mas tenho que ficar satisfeito com o trabalho que tem sido feito, juntamente com as minhas equipas, não só pelas condições internas que fomos criando, mas também pelas condições de trabalho criadas para os árbitros. Tivemos também a implementação do VAR, um aumento significativo na arbitragem feminina, e foram dados alguns passos no profissionalismo da arbitragem. Muito mais poderia ter sido feito. A falta de segurança dos árbitros nos distritais é um dos temas que mais preocupam. Sempre que existem árbitros agredidos, sinto que o meu trabalho está a valer pouco. Mas são ossos do ofício. De modo geral, estou satisfeito com o trabalho realizado.

Garantir essa segurança tem sido um dos maiores desafios?

Sem dúvida. Sobretudo a partir do momento em que, em 2012, caiu o policiamento obrigatório. Não podemos querer que se mudem mentalidades sem primeiro criarmos condições. Primeiro devíamos garantir segurança, fazermos um trabalho paralelo de sensibilização, para depois os nossos filhos e netos terem outro tipo de comportamentos que os pais, hoje em dia, não têm.

A APAF tem procurado fazer com que o policiamento possa regressar?

É difícil. Temos que nos adequar à realidade. Hoje será utópico pensar que o policiamento voltará como antes. Cada vez temos menos efectivos, e mais jogos. O que tem de acontecer, e temos feito esse trabalho, é criarmos condições para existirem comissões nas associações de futebol, na Federação Portuguesa de Futebol (FPF), que também existam punições mais dolorosas. É um problema que vai muito além do desporto. É um problema de sociedade, é os pais pensarem que têm todos um Ronaldo e um Messi em casa. E saberem que podem passar impunes. Estão aqui sentados, o filho está a jogar, e eles a ofender. E este problema não é só com os árbitros, é também com os treinadores. Temos de ser o mais punitivos possível. E, porque não concordo apenas com o castigo, também temos que sensibilizar e dar condições para as pessoas estarem no futebol de forma diferente. Se calhar não faz sentido termos competição em algumas idades. Como defendem alguns professores, os miúdos primeiro devem brincar à bola. Termos competição em miúdos de 10 ou 11 anos, talvez não faça sentido. Não havendo competição, tirava muito esse peso. São algumas coisas que têm que se ir fazendo, em que também temos feito a nossa parte, e tentarmos reduzir ao máximo as agressões e os problemas que vão existindo por esses campos e pavilhões fora.

Além da segurança, quais são os maiores desafios da arbitragem profissional e não profissional?

Na arbitragem não profissional, a segurança é um motivo para outro problema: a falta de árbitros. Temos associações com árbitros suficientes para os jogos, mas muitas associações não. Não existindo árbitros para os jogos, acaba por se dividir as equipas de arbitragens dos miúdos. Tiram o curso e são mandados logo para os jogos sem a mínima preparação, o que faz com que errem muito mais, sejam muito mais pressionados, e a probabilidade de existirem problemas seja muito maior, levando a que desistam. A falta de árbitros deve-se aos que não conseguimos trazer, ou mesmo quando conseguimos trazer, depois não os retemos. Já no futebol profissional, a maior dificuldade continua a ser a forma desrespeitosa como alguns agentes, e algumas pessoas que sobrevivem deste fenómeno, tratam a arbitragem. Falo de alguns comentadores, que têm sido uns incendiários dos problemas no futebol. Isso faz com que, considerando a influência que têm junto das pessoas que os ouvem, se descredibilize o trabalho das equipas de arbitragem. Este tem sido o nosso maior problema no futebol profissional, porque infelizmente não se olha para o futebol num todo. Em Portugal gostamos do nosso clube, não gostamos do futebol. Não gostamos que o futebol tenha sucesso, mas sim que o nosso clube tenha sucesso. E não trabalhando em equipa, todos saem

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