Entrevista

Manuel Monteiro: “É muito fácil uma pessoa escudar-se numa linguagem politicamente correcta e ser uma pessoa racista”

12 mar 2020 00:33

O autor e linguista afirma que a desigualdade não se combate através do politicamente correcto. E condena a alteração de textos clássicos ou títulos de quadros por incluírem expressões hoje consideradas erradas

Depois do livro Por Amor à Língua, Manuel Monteiro assina Sobre o Politicamente Correcto
Ricardo Graça

Vamos começar por definir o que é, actualmente, o politicamente correcto?
Começou como um movimento que procura expurgar da linguagem palavras e expressões discriminatórias e que foi alastrando para a ideia de combater todo o tipo de preconceito, não apenas na linguagem, mas numa série de símbolos, de codificações. Proteger minorias é um bom princípio. É muito importante fazer a distinção de quem critica o politicamente correcto porque é bolsonarista ou trumpista. Não é esse o meu lado. A minha única objecção ao politicamente correcto é eu achar que o politicamente correcto não funciona.

Ao ponto de um anão se transformar em alguém verticalmente desfavorecido ou, noutro exemplo dado no livro [Sobre o Politicamente Correcto, de que Manuel Monteiro é autor], na cartilha do governo Lula no Brasil ser desaconselhado o uso do adjectivo coxo.
Como a expressão “Maria vai com as outras”, que é encarada como discriminatória para as mulheres. No limite, isto torna a comunicação impossível.

Quais são os principais perigos do politicamente correcto?
Aquilo que já aconteceu: a censura de palavras em livros. Mark Twain, Harper Lee, pessoas que eram anti-racistas, pessoas que, além da vida, têm obras anti-racistas, mas que ao descrever o racismo têm inevitavelmente de usar palavras racistas. Quando se eliminam soldados que estão do mesmo lado da trincheira, é dar tiros nos próprios pés. Torna-se contraproducente.

Se dizemos ou escrevemos – também dá estes exemplos – entre empregos em vez de desempregado, reestruturação em vez de despedimento, melhor idade em vez de velhice, estamos a fazer uma escolha que tem consequências?
Que tem consequências e que é extremamente condescendente porque parece que está a querer esconder alguma coisa que é vergonhosa ou embaraçosa. Se temos um excesso de cuidado em como é que vamos nomear este fenómeno, parece que o fenómeno é em si embaraçoso, vergonhoso. Não é olhar os outros em plano de igualdade. É paternalista. E muitas vezes não é reivindicado pelos próprios grupos, esse é o aspecto mais perversamente engraçado. Em 1991, fizeram um estudo nos Estados Unidos e 70 por cento preferiam black a african american, contudo, vingou otermo politicamente correcto, ao arrepio do que os próprios negros achavam.

Também fala em estudos em que as minorias que o politicamente correcto pretende proteger ou defender consideram que o politicamente correcto se tornou um problema. Como é que se explica isto?
Primeiro, a principal forma de combater as desigualdades não passa pela escolha da palavra certa. Mesmo pessoas pertencentes ao mesmo grupo podem ter diferentes percepções de qual é a palavra. Dou o exemplo de uma prostituta que diz “Eu não quero ser trabalhadora do sexo porque isso torna a minha profissão menos apelativa”. [Nos Estados Unidos] Para designar negro passou-se de negro para black, african american, agora é person of color, [que] é parecido com o termo hoje considerado o mais racista, que é colored, mais racista só o anterior nigger. Ou seja, o que interessa é a intenção e a forma como tratamos os outros. A própria União Europeia já tem um livro de estilo com a linguagem inclusiva: não é “epiléptico”, é “pessoa com epilepsia”; não é “sofre de uma doença”, é “tem uma doença”. Torna-se um desperdício de energia, retira o foco do que é essencial. E ninguém consegue ser totalmente politicamente correcto. Ou porque não conhece a palavra da moda ou porque discorda, não tem de concordar que aquela seja a palavra mais inclusiva. Agora até o Word já assinala em castanho: “Considere utilizar linguagem mais inclusiva”. Quando estava a escrever leprosos, apareceu-me “considere escrever pessoas com hanseníase”.

Torna-se uma ditadura?
A prova disso é que há hoje petições contra o Dicionário de Oxford porque tem palavras com descrições que são ofensivas para as mulheres. Acho o princípio muito nobre, mas os dicionários também devem reflectir as palavras que são utilizadas. Quem é que faz a escolha? O dicionário é um registo e é um repositório de memória. Não acho um bom princípio rasurar, isso é eliminar História.

As palavras que escolhemos usar reflectem uma visão do mundo?
Sim, mas é muito fácil uma pessoa escudar-se numa linguagem politicamente correcta e ser uma pessoa racista, homofóbica, racista, transfóbica. Se uma pessoa disser “volta para a tua terra, negro”, o grave é o “volta para a tua terra”.

O combate entre ideologias também se transformou numa guerra de palavras?
Verdade. O que é mau é ver um hiato tão grande entre o contexto mediático público e o contexto privado. Há a ideia de que tornando invisível, tornando inaudível, desaparece. Não desaparece. O que interessa é o pensamento, as raízes do pensamento. Dou o exemplo no livro de o Žižek [filósofo esloveno] falar do Reino Unido e do Japão, países que têm aquela polidez, aquela fleuma, mas têm discriminação debaixo daquela camada de verniz. Está lá.

O PAN ganha o prémio de partido português mais politicamente correcto? Dá o exemplo de o deputado André Silva preferir “dois pregos de uma só martelada” em vez de “matar dois coelhos”.
E “muitos anos a virar pimentos” em vez de “virar frangos”. Desde que não se torne numa imposição, ele é livre de usar as expressões que quiser. Acho caricatas as propostas. Quando li as declarações do deputado André Silva, não me pareceu muito impositivo. Se não passar daí... Acho inacreditável, por exemplo, que a deputada Mariana Mortágua [Bloco de Esquerda] tenha achado bem que a Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género abra uma queixa no Ministério Público por um comentador, Pedro Arroja, no Porto Canal, ter feito declarações, de facto, ofensivas. Disse que as deputadas do Bloco de Esquerda eram esganiçadas, disse que não queria nenhuma daquelas mulheres nem dada. É ofensivo? É. Repulsivo? Até pode ser. É motivo para um órgão do Estado abrir uma queixa no Ministério Público com uma procuradora a dizer que isto pode tipificar um crime até cinco anos de cadeia? É um salto quântico.

É mais importante a defesa da liberdade de expressão do que a censura de determinado discurso?
Para mim é mais importante. Ouço discurso de ódio muitas vezes na rua. Havendo discurso de ódio, havendo pensamento de ódio, a melhor forma é responder com números. André Ventura quando ainda era candidato pelo PSD à Câmara de Loures fez declarações com uma generalização sobre os ciganos. O Francisco Louçã na altura publicou no Público um estudo sobre os ciganos que trabalham, que não trabalham, as percentagens. Isso é uma forma de responder. Acho muito mais inteligente, muito mais eficaz. Rebater idei

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