Entrevista

Paulo Agostinho: “A guerra da Ucrânia continuará a ser notícia enquanto tiver audiências”

19 abr 2022 10:00

O jornalista natural de Marrazes, no concelho de Leiria, esteve duas semanas em reportagem na Ucrânia, ao serviço da agência Lusa

Paulo Agostinho em Kiev
DR
Pedro Dantas Fernandes com FP

Enviado especial da agência Lusa, Paulo Agostinho partiu para a Ucrânia a 21 de Março, percorrendo, durante duas semanas, cidades como Kiev, Dnipro e Odessa, e recolhendo histórias como a da mulher que retornará a Kiev com as certidões de óbito do filho e do marido, após os enterrar numa aldeia desconhecida. “É uma aceleração da realidade”, afirma o jornalista, salientando que “o que aconteceu aos ucranianos, também pode acontecer em qualquer outro lado do mundo”. O editor da secção de Lusofonia, na Lusa, reflecte sobre a cobertura jornalística desta guerra, o papel de entidades governativas na disseminação da desinformação e o que presenciou no país devastado pela guerra. “Não podemos olhar para a Ucrânia com um olhar virgem de espanto, de que eles, de um momento para o outro, estão a resistir”, declara. 

O que traz da experiência destas semanas no cenário de guerra, na Ucrânia?
É uma aceleração da realidade. Novos amigos, novos conhecimentos, perceber melhor a realidade de um país parecido com o nosso que está a ser invadido. Saí de lá com a sensação de que somos todos verdadeiramente cidadãos do mundo. O que aconteceu aos ucranianos, também pode acontecer em qualquer outro lado do mundo.

Como equilibra um jornalista o ponto de vista imparcial, com a realidade de uma invasão?
A imparcialidade não significa que um jornalista não faça uma avaliação da realidade. As regras do contraditório, que são sagradas da profissão, pressupõem sempre uma ponderação do jornalista. Neste caso, há uma ponderação jornalística sempre, perante a realidade. Porque se assim não fosse, um jornalista não era jornalista, era apenas um pé de microfone. 

Como aborda a carga emocional deste tipo de reportagem, de uma reportagem de guerra?
Um trabalho jornalístico pressupõe sempre o respeito pela fonte e com quem falamos. A história da fonte não é nossa. Quando focamos isto, quando tentamos respeitar quem fala connosco e perde um bocadinho do seu tempo para nos contar o que passou, isso acaba também por nos dar a sanidade mental possível, num contexto emocionalmente muito agressivo.

O reitor da Universidade de Mariupol, que entrevistou, diz que estamos na Terceira Guerra Mundial há muito tempo. Pode-se afirmar que o jornalismo é uma das frentes e a desinformação uma arma?
A tese do reitor é que é a Terceira Guerra Mundial já começou no quadro da cibercultura, das redes sociais e do universo da desinformação. Nesta perspectiva, a desinformação acaba por ser um elemento que antecede os confrontos militares, porque cria a dúvida sobre o Estado democrático, sobre o jornalismo, sobre o “outro”, para depois fazer o caminho para o que outro tipo de operações, neste caso acções militares, teriam feito. 

Abordando o tópico da desinformação, podemos afirmar que, em vez de apenas más intenções, estamos perante algo mais sistémico e mais organizado, que diz respeito a interesses específicos?
Digamos que a maior parte dos processos de desinformação ou a maior parte dos partidos que procuram minar o Estado democrático, têm fontes de financiamento e de visibilidade – se não for financiamento directo, pelo menos promovem a visibilidade -, conferidas por quem tem interesse em destruir as sociedades democráticas, neste caso o Kremlin. Mas existem outros protagonistas que também acabam por ter esse papel.

Este apoio, vindo de governos, torna mais difícil combater a desinformação?
As coisas são mais complexas do que isso. A desinformação só existe se for dada notoriedade. Esses países ou protagonistas políticos que visam descredibilizar o sistema democrático acabam, no pior dos cenários, com os seus exércitos de trolls e de perfis falsos, a alimentar, a fomentar, a criar a dúvida, a criar uma narrativa e a dar visibilidade a todas as vertentes anti-sistema - até as legítimas. O problema é que, antes, as posições anti-sistema tinham uma visibilidade mitigada. Neste momento, têm uma visibilidade muito maior, por força desse exército silencioso, financiado por protagonistas políticos que, depois, acabam por dar uma outra exposição. Exemplo disso são os anti-vacina, que tiveram uma visibilidade brutal apenas e só com o objectivo de denegrir aquilo que os vários Estados tentavam fazer para gerir a pandemia. Não estou a discutir se tudo o que se fez foi correcto ou incorrecto, mas a dúvida permanente, a persistência no ataque à organização social que nós elegemos - através dos governos e das separações de poderes orgânicas de Estado -, tudo isto foi atacado. E estes ataques tiveram uma visibilidade muito maior do que teriam se não existisse esse endosso, esse apoio velado ou directo financiado por grupos políticos, muitos deles associados ao Kremlin, no caso da Ucrânia e de grande parte dos ataques às sociedades europeias.
Nos tempos de guerra, onde estamos a receber uma grande quantidade de informação, como se pode distinguir entre a verdade e a propaganda? 
Pesquisar, pesquisar, pesquisar! Se encontrarmos o mesmo conteúdo a sair em vários órgãos de comunicação social de reconhecida credibilidade, é porque esse conteúdo é provavelmente verdade. Se virmos aquele conteúdo apenas com uma imagem no Whatsapp ou se virmos uma publicação online apenas num sítio e não a recebermos de mais lado nenhum, há probabilidade de isso não ser exactamente verdade. Depois a outra regra, que é básica, é a do bom-senso. É muito estranho que toda a gente diga uma coisa e apenas uma página específica diga exactamente o contrário. A probabilidade de essa página específica dizer a verdade contra tudo o resto é completamente residual. Não estou a dizer que não aconteça, mas é estatisticamente tão baixa, que, se calhar, convém acreditar naquilo em que a maioria das pessoas crê ou aquilo que os media idóneos confirmaram.

Como pode o combate à desinformação ser realizado em contexto de guerra de audiências?
As audiências são relevantes porque acabam por ser caixas de ressonância de um universo que está pela base deturpado. Escrevemos notícias preocupados com redes sociais cuja visibilidade, muitas vezes, tem por base bots ou visualizações que não se sabe muito bem como aparecem. As audiências funcionam nesses módulos. Claro que o jornalismo tem de ser interessante e tem de ter audiência. Mas isso remete para a dimensão do modelo de negócio do jornalismo, que é outra conversa completamente diferente. A guerra da Ucrânia continuará a ser notícia enquanto tiver audiências. 

Qual o maior equívoco sobre o jornalismo de guerra?
Não há jornalismo de guerra. Há jornalismo e não há jornalismo. O que é que o jornalismo faz? Nós identificamos as disrupções, aquilo que foge à norma e uma guerra foge à norma. O que se tenta fazer é procurar elementos da história que estamos a cobrir, que consigam cativar e criar um laço afectivo, emocional e intelectual de qualquer forma com os nossos leitores, com os nossos “consumidores”. Foi o que tentei fazer ao tentar pôr alguns protagonistas da Ucrânia a falarem sobre Portugal e até sobre o Yaremchuk, o jogador do Benfica. O meu papel é tentar aproximar essa realidade para a realidade concreta. Dito isto, nunca as notícias correspondem à verdade com que vivem essas populações porque retratam alterações da norma e, por isso, vemos planos apertados de destruição. Sabendo do plano, veremos que as coisas ao lado não estão exactamente assim. Por outro lado, é impossível descrever em texto, em vídeo, em áudio, em fotografia, a tensão que se vive 24 horas por dia, de um país que está a ser invadido. 

Como descreveria o espírito ucraniano perante esta guerra?
A guerra não começou agora, mas em 2014. Tecnicamente falando, a guerra dura desde a Revolução Laranja, de 2004. Estamos a falar de um país que está em processo de descolonização da Rússia. Por isso, não podemos olhar para a Ucrânia com um olhar virgem de espanto, de que eles, de um momento para o outro, estão a resistir. Eles estão a resistir há muitos anos. Estão a construir um país contra outro país que o considera ainda parte do seu território. Perante isto, têm uma capacidade de resiliência, de mobilização, de organização e de motivação assinalável a todos os níveis, mas que tem que ver com essa relação complexa que têm com o antigo colonizador.

Qual a reacção da comunidade russófona à invasão?
Não há comunidade russófona nem há comunidade ucraniana. Há ucranianos que falam russo e há ucranianos que falam ucraniano. Não senti grandes diferenças. Existe algum fascínio relativamente à memória de Moscovo, mas se há um elemento que une as populações russófonas e ucranianas é o ódio a Putin e à visão imperialista que a Rússia tem sobre a Ucrânia.

Acredita que, no nosso futuro, vamos ter menos conforto e teremos de mudar o modo com vivemos em virtude da nova realidade que esta guerra traz?  
Hoje, o mundo tem menos guerras do que há alguns anos, apesar da situação na Ucrânia. A diferença é que as armas são tão potentes, e há também uma visibilidade mediática, que muda as regras, havendo uma maior sensação de desconforto. Nós, o mundo Ocidental, o mundo privilegiado - porque somos privilegiados -, temos de pensar que somos cidadãos iguais e há-de chegar o momento onde teremos de dar um passo atrás no conforto, nas energias fósseis e num conjunto de coisas e pensarmos no ponto de vista de uma cidadania global. Neste sentido, estou optimista. Os jovens da Ucrânia, de Angola, de Portugal não são assim tão diferentes entre si, naquilo que exigem da nossa geração, que agora governa os vários países.

Traçando um paralelismo entre a actual situação na Ucrânia e as alterações climáticas, o optimismo mantém-se?
Não sou cientista. Temo que haja danos irreversíveis, temo que a minha geração não esteja preparada para abdicar de um conjunto de matérias de modo a impor questões de direitos humanos e de gestão dos Estados como condição para o comércio internacional. Isso, por exemplo, impedir-nos-ia de comprar petróleo a quem tem feito sistemáticos ataques aos Direitos Humanos. A minha geração não está preparada para isso. Há-de morrer e deixará o planeta para quem vier. Por isso, conjunturalmente, não estou optimista. Mas, no final da história, vamos sair com uma melhor Humanidade. Se calhar com muita tragédia pelo meio, com muitos desastres ambientais, mas vamos sair com uma melhor Humanidade do que aquela que agora temos.