Entrevista

Ricardo Porém: “Quando se vê um acidente, parar não é fair-play, é uma obrigação”

23 jan 2020 09:06

O piloto de Leiria relata as aventuras que viveu na Arábia Saudita durante a última edição do Dakar. Desiludido por ter sido forçado a abandonar, já pensa na edição de 2021

Ricardo Porém
Ricardo Graça

Há sempre uma dúvida que assalta o comum dos mortais: os pilotos, no Dakar, conseguem desfrutar das paisagens?
Nada. Vamos muito concentrados. Nos últimos dias, a ver os resumos diários do Eurosport, até me questionava se era aquela a corrida que tinha feito. As paisagens são fantásticas, mas a nossa corrida é feita apenas de pó, areia, pedras, dunas e céu. 

Como é que treinam para o Dakar se pouco acesso têm ao carro?
Treinamos fisicamente. Como o carro pouco, a verdade é essa. Dá para fazer uma ou duas corridas antes das provas maiores, mas o desporto motorizado não tem essa questão do treinar, como um jogador de ténis, por exemplo. Não é economicamente viável. Obviamente, quantos mais quilómetros fizer mais confortável estás e mais rápido és, mas não é por andar todos os dias com o carro em Leiria que iria ser mais rápido na Arábia Saudita.

A prova não foi o que esperava.
Não, de todo, e não foi por falta de preparação do carro e da equipa. Considero que foi pouca sorte. Infelizmente, saiu-nos a fava. Coisas que fazem parte das corridas, que não conseguimos controlar. O carro foi devidamente preparado e a equipa é muito profissional, com muitas capacidades. Os problemas técnicos que aconteceram até os considero um bocadinho absurdos.

Porquê?
A caixa de velocidades era nova, de uma marca do melhor que existe. Não há histórico de situações idênticas e duas caixas novas, produzidas para este rali, a minha e a do meu colega Nani Roma, tiveram problemas, provavelmente com algum defeito de fabrico. 

"Não diria medo. Apanhamos sustos, a seguir vamos a defender-nos mais até ganhar confiança e, quando ganhar confiança novamente, vamos voltar a assustar-nos. É sempre assim"

As avarias são depois analisadas?
No final de cada dia trabalhamos juntamente com os engenheiros para analisarmos todos os parâmetros e vamos percebendo o que poderemos ter feito mal ou que estamos a fazer bem. A verdade é que estava tudo dentro dos padrões, estávamos a fazer tudo certo e as coisas acabaram por acontecer.

Há alguma coisa que podia ter feito de forma diferente?
Em relação ao carro e à condução, não. Faria tudo exactamente igual. Fisicamente também estávamos muitíssimo bem preparados. Apesar de as etapas serem longas, sentimo-nos sempre muito bem. Mas há sempre alguns pontos, por exemplo no trabalho de mecânica, que deveríamos ter tido um bocadinho mais de tempo para estarmos rápidos a solucionar avarias. No entanto, os problemas que tivemos nunca poderíamos ser nós a resolver. De qualquer modo, se há ponto que temos de melhorar é o conhecimento mecânico.

Por falar nisso, foi fustigado por uma série inusitada de furos. Em quanto tempo consegue mudar um pneu no meio de deserto?
Medido pela telemetria, um minuto e 45. Esse foi o mais rápido. Houve outros que correram pior.

A quantidade de furos que teve foi normal?
Não é normal, mas foi normal neste Dakar. A marca com que corremos e que equipa 90% dos concorrentes desenvolveu um novo pneu, que não foi testado antes. Ou seja, tem um largo desenvolvimento tecnológico, mas as soluções para o terreno muito duro que iríamos apanhar, com pedra, não funcionou bem. Para ter uma ideia, uma das nossas adversárias, que tinha nove carros, teve 30 furos num dia. Não era só a Borgward, a Toyota ou a Mini. Houve muitos que tiveram quatro furos num só dia. 

Quando percebeu que não ia chegar ao fim?
No dia da caixa de velocidades percebi que teria de sair da corrida, mas poderia usar o joker. Já não seria a mesma coisa, deixava de contar para a classificação geral, mas queria dar o melhor de mim, obter bons resultados nas etapas, treinar e acumular experiência. Infelizmente, depois do dia de descanso, em que o carro sofreu uma revisão profunda, avariou-se outra peça com defeito, desta vez de uma das marcas mais conceituadas em bombas de direcção. Foi na maior etapa, de 550 quilómetros, e a partir do quilómetros 96 ficámos sem direcção assistida. Fomos conseguindo resolver até ao quilómetros 211, mas depois foi impossível continuar. Ainda fizemos 100 quilómetros nas dunas, é um esforço que ninguém tem noção. Faltavam 350 quilómetros para o final e já não conseguimos substituir mais correias. Foi muito duro, muito difícil. 

O que se pensa quando o objectivo não é cumprido? 
Confesso que chorei no dia em que ficámos sem caixa de velocidades, mas até foi uma

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