Entrevista

Sara Fernandes: “Poderíamos ter uma aplicação de telemóvel que dissesse se há pessoas infectadas”

29 mai 2020 22:00

A especialista em cidades inteligentes e cibersegurança fala da utilização da tecnologia na resposta à Covid-19. E acusa a Comissão de Protecção de Dados de viver na era pré-internet

A conversa com Sara Fernandes decorreu em videoconferência
Ricardo Graça

Como é que, no imediato, os telemóveis, os computadores e as redes inteligentes nos podem ajudar na resposta à Covid-19?
Um pequeno exemplo. O serviço nacional de saúde inglês tem uma aplicação que faz o seguinte: todas as pessoas que têm conhecimentos de CPR estão numa rede, e se houver alguém que tenha um ataque cardíaco, o sistema envia uma mensagem para as pessoas que estejam próximas para ver se têm disponibilidade de ir fazer as primeiras manobras de ressuscitação. Este tipo de aplicações fazem a diferença entre salvar uma vida [e não salvar]. Como esta, existem muitas outras. Obrigou a quê? A ter dados abertos. É um exemplo de uma aplicação que pode estar enquadrada num projecto de smart cities [cidades inteligentes] em Inglaterra, em Portugal, em Itália, onde quer que seja. Qual é a diferença, aplicando à Covid? Poderíamos ter um tipo de aplicação similar que nos dissesse, através de uma aplicação de telemóvel, se no raio de um quilómetro, por exemplo, há situação de pessoas infectadas.

Informação sobre desinfecção de locais, por exemplo, hotéis ou restaurantes, também pode ser integrada num sistema informático e disponibilizada aos utilizadores de uma rede?
Completamente.

As operadoras fizeram estudos para perceber em que concelhos as pessoas saíram mais ou menos de casa.
O lado positivo é que podemos, efectivamente, fazer uma análise do padrão de actividade das pessoas e conseguimos dizer e até prever que pode haver um foco de transmissão, porque as pessoas, de facto, estão a sair mais. Outro lado é a questão dos dados. Quando estamos tão ligados à tecnologia temos de pensar sempre que haverá algum vilão nesta história que vai detectar esses dados e ninguém me garante que eu saio de casa e não tenho uns senhores quaisquer a entrar dentro de casa para me roubar.

Os aspectos da cibersegurança não estão suficientemente desenvolvidos para que possamos dar um passo, ou vários, na direcção do desenvolvimento mais rápido e aprofundado do conceito de cidades inteligentes?
Com toda a certeza, não. Uma coisa que chamo a atenção, sempre, é que isto é constante. A todo o minuto, a todo o segundo, este tipo de ataques estão a acontecer.

De que tipo de riscos estamos a falar para o cidadão comum?
Através do Zoom, por exemplo, conseguir fazer um acesso que possa mudar o reconhecimento facial e criar bases de dados para reconhecimento facial, vender as informações de reconhecimento facial. Outra coisa que se pode fazer é triangulação, estudar a actividade e vender essa informação a empresas para venda de produtos. E outras coisas que são ainda mais perigosas, no caso do Zoom, que é muito utilizado pelas crianças, situações de pedofilia e da dark web. São três situações, para as pessoas, de imediato, que não vejo nenhum tipo de cuidado.

Devemos assumir que, por defeito, estamos expostos?
Mas estamos mesmo.

Voltando ao início da conversa, por que é que não foi possível, nesta pandemia, utilizar a tecnologia e os sistemas informáticos da mesma forma que já se utilizam na área da saúde para outras doenças?
Por uma coisa que se chama Comissão Nacional de Protecção de Dados, que, com todo o respeito, acho que vive na era pré-internet. Esse é o grande problema. Não são rápidos o suficiente, não estão actualizados o suficiente, nem têm o mindset [mentalidade] preparado para os tempos que vivemos. As questões legais estão desfasadas daquilo que está a acontecer, que é muito rápido. E não conseguem acompanhar esta evolução. Acho que a Comissão de Protecção de Dados ainda nem percebeu o que é isto da pandemia.

Tem-se falado na medição da temperatura corporal e quando os alunos do ensino secundário regressaram às aulas a Comissão Nacional de Protecção de Dados emitiu recomendações.
É um exemplo de que a Comissão de Protecção de Dados não sabe o que é uma pandemia. Uma pandemia é o mesmo que uma situação de guerra. Estamos a viver uma situação em que temos de nos proteger a nós e aos outros.

A tecnologia existe, mas não estamos a aplicá-la por questões legais?
Não só. Não há conhecimento de como colocar este tipo de projectos em acção. Temos várias agências, mas não temos uma acção concertada para a base tecnológica. Não existe. Não temos uma estrutura com força suficiente, que consiga ultrapassar aquilo que chamamos de silos governamentais, que são os ministérios, que possa enviar directrizes a todos a dizer “isto funciona assim e são estes os passos gerais que vamos tomar”. Isso não existe em Portugal. Não existe uma acção concertada. Portanto, enquanto não houver, dificilmente vamos ter uma solução que se aproxime do ideal para resolver este tipo de problemas. No caso de países com mais poder económico e mais relevância a nível tecnológico, como uma Alemanha, uma Coreia do Sul, Singapura, Estados Unidos, essa figura existe [government chief information officer, GCIO] e está sediada nos gabinetes dos presidentes – nos Estados Unidos está na Casa Branca – ou nos primeirosministros ou no Ministério das Finanças. Não quer dizer que seja uma pessoa relacionada com a tecnologia directamente. Por exemplo, o primeiro GCIO do presidente Obama era um psicólogo, só que tinha muito poder e uma equipa técnica muito grande que pensava de forma transversal todos os problemas que advin

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