Entrevista

David Durão: “A cardiologia de Leiria está a dar resposta a quase tudo o que qualquer hospital central dá”

25 jun 2026 07:30

O director do serviço de Cardiologia de Leiria admite que a tecnologia e a inteligência artificial são mais-valias na saúde, mas sublinha que a relação humana de médico- -doente é insubstituível

David Durão
Ricardo Graça

O Hospital de Leiria iniciou, na semana passada, um novo programa de eletrofisiologia. Que vantagem vai trazer esta técnica?
A vantagem clara é a possibilidade de tratamento de arritmias que podem ser curativas através destas técnicas de ablação, sem os doentes terem de se deslocar para os hospitais centrais. Antigamente tínhamos de os referenciar para Coimbra ou para Lisboa, tinham de ser avaliados em consulta e passar por processos de revisão e decisão clínica. Isto só foi possível graças à abertura desta nova sala, um projecto financiado pelo PRR [Plano de Recuperação e Resiliência], e também pelo investimento do conselho de administração na compra do material necessário para fazer este tipo de procedimentos. Para os profissionais de saúde fomenta a formação no desenvolvimento de novas técnicas. Não são só os médicos, mas os enfermeiros e os técnicos de cardiopneumologia, todos estão muito envolvidos para o sucesso desta nova técnica acontecer em Leiria.

Isso contribui para diminuir os tempos de espera?
Quando referenciávamos para os hospitais centrais, o tempo de espera deste procedimento era seguramente superior a seis meses. Aqui, estamos a começar com a técnica e ainda não estamos a fazer muitos casos semanais, mas acredito que, havendo disponibilidade da técnica, acaba por depois haver mais tempo de espera. É a lei da oferta e da procura. Temos de ter capacidade para dar mais respostas aos doentes, mas isto também implica um processo formativo. Actualmente, temos apoio de equipas externas para virem ajudar na formação do pessoal da casa. Estamos no bom caminho.

Recentemente também foi realizado o primeiro implante de pacemakers sem eléctrodos e foi criada uma sala de pacing. Até onde vai a inovação na cardiologia de Leiria?
O pacemaker sem eléctrodos já se implantava. A única especificidade deste é que são duas microcápsulas que são implantadas dentro do coração. Uma ao nível da aurícula e outra ao nível do ventrículo esquerdo. Antigamente, era só uma única cápsula. A inovação que queremos é que o serviço cresça, sobretudo, de forma sustentada, em termos de diferenciação tecnológica e técnicas novas, mas a componente clínica tem de estar aliada a isto. Estamos cada vez mais a ser procurados por uma área de abrangência maior, dando resposta a doentes da ULS do Oeste e da ULS do Médio Tejo e isso implica um consumo de recursos humanos e técnicos muito significativo. Queremos reforçar a nossa unidade de cuidados intensivos com um nível de diferenciação maior. Também queríamos arrancar na implantação de válvulas aórticas percutâneas, que é uma técnica que se faz quase só em hospitais centrais, mas é um passo muito importante, pois o tempo de espera é elevadíssimo. São doentes com patologia muito grave que precisam de uma resposta. A curto prazo será esse o projecto.

E em termos tecnológicos?
Tem havido a renovação de muito material, o processo de aquisição de equipamento de prova de esforço está a chegar, aumentámos o número de holters, também havia uma grande limitação de ecógrafos e comprámos ecógrafos portáteis. O conselho de administração tem dado resposta e eu também sou um bocado insistente. Em termos de espaços físicos houve melhorias e o próximo passo vai ser reorganizar a consulta externa, porque com este aumento crescente de resposta, precisamos de mais gabinetes de consultas. Tudo isto tem sido desafiante e muito exigente.

Que papel desempenham a inteligência artificial e as novas tecnologias na cardiologia?
Todos estes softwares utilizados nestas técnicas estão sempre a ser renovados e a inteligência artificial já faz muito do trabalho que anteriormente era feito de uma forma mais humanizada. Em termos de decisão clínica, o senso clínico é inultrapassável, a empatia da relação médico-doente é inultrapassável, mas todas estas tecnologias novas de monitorização dos doentes, dos softwares utilizados em termos informáticos, quer para estes processos de eletrofisiologia, quer na área da hemodinâmica, já têm um grande suporte de inteligência artificial associado.

O Serviço de Cardiologia realizou 467 implantes de dispositivos cardíacos, sendo o 9.º entre 55 centros nacionais. Que balanço faz da actividade do serviço?
Isso são dados referentes a 2025, quando ainda só tínhamos à nossa disposição uma das salas da hemodinâmica e conseguimos ficar no top 10. Isto implicou uma utilização muito rigorosa de recursos humanos e precisou de uma grande gestão organizacional para conseguirmos dar resposta a este tipo de doentes. Mas a actividade do serviço de cardiologia não passa só por aí. Fizemos mais de 14 mil consultas, quase 2 mil cateterismos e 6 mil ecocardiogramas. Para o rácio de profissionais, a resposta que tem sido dada é francamente significativa.

A cardiologia do hospital de Leiria é reconhecida no País. O que a diferencia?
O Serviço de Cardiologia teve um crescimento sustentado, que muito se deve às direcções anteriores. A minha função é motivar a equipa para continuarmos esta trajectória. Uma das principais vantagens para termos esperança no futuro, mantendo o rigor, a competência e a inovação tecnológica, é termos um staff clínico de gente muito jovem. A média de idades deve rondar os 40 anos ou até menos, e são jovens com muita formação, com muita vontade de fazer as coisas, com muita diferenciação. Importa captar e ir motivando estes jovens clínicos a fazerem mais e melhor pelos seus doentes.

Que áreas de diferenciação é que o serviço disponibiliza à população?
No tratamento da doença coronária, temos esta parte da hemodinâmica, que dá resposta 24 horas, 7 dias por semana, todos os dias do ano. Agora, com as duas salas, não vai haver interrupções para recebermos doentes para o tratamento do enfarte. A nível da eletrofisiologia e do pacing, é uma actividade que está muito sedimentada e damos resposta significativa ao tratamento das arritmias. A consulta externa, que é onde temos o maior volume de doentes, superior se calhar à urgência, oferece várias valências. Temos a consulta de cardiologia geral, que acaba por ser o grande bolo, mas depois temos consultas específicas, como da arritmologia, de miocardiopatias, de insuficiência cardíaca, de intervenção vascular. Essa sectorização permite distribuir os doentes para os médicos com formação específica nessa área. Com este volume cada vez maior de doentes também inscritos na ULS Leiria, por sermos centro de referência também de outros hospitais limítrofes, a urgência tem um impacto mais significativo na gestão do serviço. Precisamos de um reforço de número de médicos para prestarem apoio à urgência, porque é uma sobrecarga de trabalho significativa. Nos cuidados intensivos cardíacos, também estamos a tentar diferenciar-nos mais. Estamos em processo de aumento do número de camas de 5 para 6. No internamento, no ano passado, aumentámos a capacidade para 15 camas. Ainda dentro da área dos cuidados intensivos cardíacos, vamos fazer parte da Via Verde do Choque Cardiogénico, que são doentes graves em estado crítico. Portanto, a cardiologia de Leiria está a dar resposta a quase tudo o que qualquer hospital central dá. Só nos falta a cirurgia cardíaca, mas é impossível termos cirurgiões cardíacos em cada hospital distrital.

Leiria tem uma Via Verde Coronária. Qual a sua importância?
A Via Verde Coronária foi um avanço civilizacional incrível para todo o País. Refiro-me àqueles doentes que chegam com um enfarte agudo do miocárdio e que são tratados, idealmente, logo nas primeiras horas, em que o potencial de recuperação é maior. Com as novas redes de referenciação vamos ficar com uma área de abrangência que pode atingir quase os 900 mil habitantes. Temos capacidade de resposta, mas precisamos ser financiados em termos monetários, de recursos humanos, técnicos e de enfermagem.

Quais são os principais problemas cardiovasculares?
Há três grandes áreas que estão directamente associadas ao envelhecimento da população. Temos a questão da doença coronária, que é a principal causa de morte nos países civilizados, associada às doenças cerebrovasculares. Com o envelhecimento, temos a insuficiência cardíaca, que é uma pandemia. Vai ser necessário uma grande articulação com outras especialidades para dar resposta a este grande número de doentes. Vamos tratando dos enfartes e aumentando a sobrevida de todas estas doenças que antigamente matavam muito mais cedo, só que vão ficando algumas sequelas. Depois temos as arritmias, sobretudo da fibrilhação auricular, nos doentes acima dos 65 anos. Isso acaba por descompensar outras condições médicas. Mas diria que a doença coronária e a insuficiência cardíaca são o nosso principal motor, que implica estarmos sempre activos na resposta para dar melhores soluções aos doentes.

E como têm sido essas respostas?
O serviço tem uma consulta específica de insuficiência cardíaca avançada, na qual os doentes são avaliados para ver aqueles que ainda reúnem condições para serem candidatos à transplantação cardíaca ou implantação de corações artificiais. Temos o Hospital de Dia de Insuficiência Cardíaca, onde tratamos os doentes que estão em vias de descompensação maior, evitando assim a sobrecarga a nível do serviço de urgência, que estes doentes são super frequentadores. Num ano, facilmente 30% deles acabam por vir mais do que uma vez à urgência. Por isso, é fundamental que os avaliemos em hospital de insuficiência cardíaca e fazermos as terapêuticas, para os irmos acompanhando mais de perto. Associada à insuficiência cardíaca, temos os dispositivos cardíacos implantáveis. Estes doentes geralmente são candidatos a pôr desfibrilhadores, cardioversores desfibrilhadores implantáveis, ou resincronizadores, para tentar melhorar a sua qualidade de vida e sobrevida. Estamos a dar uma resposta completa e global na insuficiência cardíaca. Em alguns casos referenciamos pacientes terciários para transplantação ou suporte circulatório mecânico.

Como estão as listas de espera na cardiologia?
Na última análise que fiz, em Julho, tínhamos 98,6% do tempo cumprido em termos de resposta média. A lista de espera para consulta externa de cardiologia deve rondar os dois meses, assim como nos implantes. Na hemodinâmica é cerca de um mês.

Que factores de risco mais frequentes é que encontra nos doentes?
A idade avançada é aquele factor de risco que não permite ser modificável. Temos uma incidência altíssima de doentes hipertensos e com dislipidemia, com níveis de colesterol ou triglicéridos muito aumentados. Fumadores, muito sedentarismo e diabetes, cada vez, em pessoas mais jovens.

Morre-se de coração partido?
Existe o síndrome de Takotsubo, que na tradução portuguesa é o síndrome do coração partido, que não é só de amor. É uma patologia específica que é associada a algum stress emocional, que pode desenvolver características clínicas. Em termos de exames complementares de diagnóstico são semelhantes ao diagnóstico de um enfarte agudo do miocárdio, como se fosse por um entupimento de uma artéria. Neste caso, é por uma sobrecarga adrenérgica em termos hormonais que leva a que o coração, nas fases iniciais, possa ter grandes limitações na sua contratilidade, e vir a desenvolver arritmias mais significativas. A vantagem é que, geralmente, estes casos são reversíveis.

Perfil
Sem tempo para o padel
David Durão é director do Serviço de Cardiologia da Unidade Local de Saúde (ULS) da Região de Leiria, desde Junho de 2025. Nascido em França, aos 8 anos mudou-se com os pais e os irmãos para a Mendiga, no concelho de Porto de Mós, onde fez o seu percurso escolar. Formou-se na Faculdade de Medicina de Lisboa, e fez o internato geral no hospital de Leiria. “Gostei muito de medicina interna, mas uma pessoa de quem gosto muito e que era internista, disse-me: ‘David, não vás para a medicina interna, vais arrepender-te, é uma vida complicada’. Acabei por ir para cardiologia.” Sem vaga em Leiria para fazer a especialidade, passou por outros hospitais. Com a saída de João Morais, concorreu ao cargo de director do serviço de cardiologia de Leiria. As novas funções roubam-lhe tempo para manter a prática de padel e até de leitura. “Muito do tempo que tenho disponível é para estar recolhido com calma, ver umas séries, apesar de não ser a coisa mais activa fisicamente, mas consigo desconectar-me daquilo que são os problemas do dia-a-dia.”