Opinião

A consciência trabalha noutro atelier

7 ago 2026 11:57

Se esse lugar existir, Susanna Hoffs continua a sorrir antes do primeiro refrão de "Manic Monday". Aquele grupo de amigos continua sentado algures, com copos de vinho medíocre, livros abertos e cinzeiros cheios, convencido de que está prestes a compreender o universo

Marguerite Yourcenar escreveu que o tempo é esse grande escultor. Há muito que me acompanha esta frase. Nunca encontrei outra que dissesse tanto com tão poucas palavras. O tempo esculpe os corpos, as cidades, as montanhas, as árvores. Esculpe até a memória coletiva. Nada lhe escapa. Ou quase nada.

Esta manhã, enquanto o café arrefecia sobre a mesa, o algoritmo do YouTube decidiu levar-me até 1986. Soaram os primeiros acordes de "Manic Monday" e apareceu Susanna Hoffs. Não a mulher que hoje existe no mundo. A outra. A que ficou presa naquele instante improvável em que uma canção, um olhar e uma idade coincidiram pela primeira vez. Durante pouco mais de três minutos, o escultor pareceu perder as ferramentas.
 
É um fenómeno estranho. Sei que ela envelheceu. Sei que eu envelheci. Sei que o calendário nunca pediu licença para continuar. Mas a consciência ignorou tudo isso. Não recuperou uma recordação. Fabricou um presente. Durante aqueles minutos, aquela jovem voltou a existir com uma nitidez que nenhuma fotografia consegue reproduzir. Não porque estivesse diante dos meus olhos, mas porque estava inteira dentro de mim.
 
Foi nesse instante que comecei a desconfiar do tempo.
 
Talvez ele seja apenas o escultor da matéria.
 
Porque aquilo que aconteceu dentro de mim não obedeceu ao calendário. Durante breves minutos, quarenta anos deixaram de existir. Não senti nostalgia. A nostalgia olha para trás. Eu não olhei para trás. Habitei aquele instante. Como se nunca tivesse terminado.
 
Curiosamente, a canção não me levou apenas aos anos oitenta. Levou-me também a outro verão. Há vinte e sete anos. Espanha. Bebíamos vinho medíocre, enchíamos cinzeiros atrás de cinzeiros e discutíamos os livros que andávamos a ler como se, entre um gole e uma página, estivesse escondida a chave do universo. O meu chamava-se O Tempo, Esse Grande Escultor. Sorri ao perceber que foi preciso uma canção para me devolver ao livro e um livro para me fazer desconfiar do tempo.
 
A ciência explica uma parte desta experiência com uma elegância que me continua a fascinar. Fala de memória, de sinapses, de redes neuronais que se reacendem. Mas há uma pergunta que permanece de pé, tranquila, quase insolente. Porque existe alguém a viver essa experiência? Porque existe um mundo interior? A consciência continua a ser um dos lugares onde até os maiores cientistas caminham com prudência. Não considero isso uma derrota. Considero-a uma das maiores demonstrações de honestidade da ciência. Há perguntas que ainda não têm resposta. E gosto que assim seja.
 
Talvez por isso volte tantas vezes a Carl Sagan. Quando escreveu que o cosmos é tudo o que é, tudo o que foi e tudo o que será, ofereceu-nos uma definição científica do universo. Mas, como acontece com todas as grandes frases, ela permite leituras que escapam ao próprio autor. E se o passado não for apenas aquilo que deixou de acontecer? E se continuar, de alguma forma, a pertencer ao universo, à espera de que uma música, um cheiro ou uma frase encontrem novamente o caminho?
 
Borges passou a vida a desconfiar do relógio. Nos seus contos, o tempo nunca era uma linha; era um labirinto onde todos os momentos permaneciam disponíveis, à espera do viajante certo. Sempre achei que era apenas literatura. Hoje já não tenho tanta certeza. Talvez a literatura apenas tenha chegado primeiro a lugares onde a ciência ainda caminha.
 
É agosto. O calor torna-nos um pouco mais indulgentes com as ideias impossíveis. O mar abranda o pensamento. A luz prolonga as tardes. Ficamos mais disponíveis para aceitar que nem tudo precisa de uma resposta imediata. Talvez isto seja apenas romantismo de verão. Talvez.
 
Mas gosto de imaginar que existe um lugar onde o tempo ainda não manda.
 
Se esse lugar existir, Susanna Hoffs continua a sorrir antes do primeiro refrão de "Manic Monday". Aquele grupo de amigos continua sentado algures, com copos de vinho medíocre, livros abertos e cinzeiros cheios, convencido de que está prestes a compreender o universo. Talvez o tempo continue a esculpir tudo o que é matéria.
 
Mas começo a suspeitar que a consciência trabalha noutro atelier.