Opinião
A Ópera que não é para operários…
Democratizar a cultura é fácil. Promover uma Cultura Democrática, isto é, participada, é mais complexo. E urgente.
Isto da Cultura tem que se diga. É muita coisa e pode não ser nada. Há manifestações artísticas que por natureza são profundamente elitistas e que, portanto, não se integram numa Democracia Cultural. A ópera, por exemplo. Dir-se-á que isso é normal em todo o lado: as produções são muito caras, o público é relativamente limitado e o objetivo é cultural, não comercial.
Ninguém poderá pôr em causa, por tudo isto, a existência de um Teatro Nacional de S. Carlos e os seus custos. O que se pode questionar é se estão a fazer um serviço público, sendo subvencionados em grande maioria pelo erário público. Na época de 2023/2024, o Teatro Nacional de S. Carlos despendeu entre 10 M€ [milhões de euros] e 13 M€, o que incluiu as produções de ópera (cenários, figurinos, encenação), os cachets de artistas e maestros, o coro e orquestra e os custos técnicos e de funcionamento.
Se estimarmos por alto, e favoravelmente, em cerca de 50 000 espetadores os que assistiram aos espetáculos no S. Carlos, sem a certeza absoluta dos dados, cada espetador, pagando o seu bilhete entre 20 a 80 euros, foi subvencionado pelos cofres do Estado em mais de 200 euros. A questão é que com estes valores a Ópera de S. Carlos tinha obrigação de fazer muito mais. A de levar a Ópera às escolas por esse país fora, por exemplo. Não uma orquestra, nem um coro.
Bastava um quinteto e uma soprano e um tenor, e alguém que explicasse as peças operáticas mais famosas, que fizesse participar os miúdos das escolas nessa expressão artística tão alheada dos seus interesses. Com os apoios que recebe deveria assumir obrigações educativas descentralizadas, sistemáticas e consequentes, de tal modo que, no final de uma década, por exemplo, todos os jovens pudessem ter tido contacto com esta expressão artística.
E isto não é nada de novo. Quando a RTP era só um canal, pudemos ver nos anos 60 os célebres “Concertos para Jovens” em que o maestro Leonard Bernstein levava a sua orquestra às escolas e jovens atentíssimos vivenciavam “a construção” de obras musicais famosas. O maestro português José Atalaya pegou no mesmo conceito e, à medida das suas possibilidades, fez nas escolas o mesmo trabalho, nessa necessidade de “destruir a barreira entre o público e o artista”.
Ora, Bernstein e Atalaya, e alguns outros, afirmaram no seu tempo um conceito fundamental: a cultura, neste caso a música, não é apenas para ser mostrada. Tem de ser vivida e entendida. Democratizar a cultura é fácil. Promover uma Cultura Democrática, isto é, participada, é mais complexo. E urgente.