Opinião
A vida é sempre a perder
Tentamos ajustar-nos às luas e às marés, boiamos para pouparmos forças e o caminho vai-se cumprindo sem que sejamos propriamente timoneiros ao serviço. Para trás fica tempo de vida, fica o que não fomos, o que não demos e o que não ousámos
Mesmo quando se ganha. Verticalidade, um ordenado mais alto, a admiração dos pares, o exemplo que somos face aos filhos, as contas a bater certo, as lágrimas justas, o buraco previsto onde forçamos guarida, o músculo a crescer, o sentido obrigatório, a prioridade suposta, o sono que dispara sonhos que antes fossem predições. E nisto, mais um jantar de conservas, conversas desamparadas, abraços que afinal não, noitadas que afinal sim, piscinas que afinal não, cervejas que afinal sim, mensagens que afinal não, cigarros que afinal sim, músicas que acorrem em piedoso sufrágio, desalento como alimento, a vida esquivada às promessas que fez.
Queremos decifrar o espólio encriptado dos desígnios fora do nosso alcance. Queremos ser pessoas boas, das que merecem fulminância no momento de morrer.
O problema da vida é o seu carácter de travessia. Tentamos ajustar-nos às luas e às marés, boiamos para pouparmos forças e o caminho vai-se cumprindo sem que sejamos propriamente timoneiros ao serviço. Para trás fica tempo de vida, fica o que não fomos, o que não demos e o que não ousámos. E avançamos, numa fundamental concessão de condescendência por termos sido bem-intencionados. Ou tão só por não termos sabido mais e melhor, enquadramento no qual costuma caber a nossa infância e aquilo que outros não souberam fazer mais e melhor por nós.
Transversal a tudo isto, pairando e infiltrada em todos os interstícios, temos a sorte. Determina as pessoas com quem a vida nos cruzou, muitas vezes sem critério que se descortine, num emaranhado de fios invisíveis que nos ligam a todos com todos. Há um puxão, e do outro lado do fio uma pessoa que vai mudar a nossa vida. Que nos vai ensinar ou desintegrar, que vai ser motor de arranques, que vai secar-nos ou que vai ser rampa. Penso no curso de Letras que não tirei porque o miúdo por quem estava apaixonada na escola secundária escolheu Ciências, e eu queria manter-me na turma dele. Estava dado o mote.
Não gosto de olhar para trás, a não ser quando um puxão maior me rebenta com um fio. O desnorte regressa, sinto de novo o medo velho de escolher errado. Faço valer o indulto há muito concedido por ser sempre o que sinto, mas está armada a guilhotina sobre o cepo. Agora sei que as cabeças rolam, que custa muito vivermos decepados do que podíamos ter sido, que custa mais ainda enfiar no focinho o carapuço de algoz. A inconsequência é uma bênção e é um perigo, apetece por ser dengosa no ardil que nos estende aos pés: onde levaria o trilho que cede e nos deixa aqui?
A vida está sempre a perder-nos. Não sabe lidar connosco e não podemos confiar na luxúria irresistível com que, às vezes, parece abrir-se toda para nós. Isto é dúbio, e remete para as saudades dos dias em que a vida me encontrou.