Opinião

Ana Pires: O que fazer às cápsulas de café?

10 set 2026 21:30

A partir de dia 12 de agosto, as cápsulas e as pastilhas de café passam a ser consideradas embalagens. Os fabricantes têm de garantir que são recicláveis

As cápsulas de café foram uma invenção que revolucionou o modo como consumimos café em casa. Mais limpo, mais prático e com uma diversidade de intensidades e sabores à qual era difícil de resistir. Foi o inventor suíço Éric Favre, quem que teve a ideia, em 1976, juntamente com a sua mulher Anna-Marie, de encapsular o café de modo a permitir que o ar entrasse primeiro em contacto com o café, libertando todos os seus aromas, e só depois a água.

Apesar do potencial da invenção, a Nestlé só criou a Nespresso em 1986, dando a Favre a possibilidade de a levar a uma escala comercial. Hoje, o mercado das cápsulas de café é enorme. Só na Europa são consumidas cerca de 60 mil milhões de cápsulas por ano.

Fabricadas maioritariamente em plástico e/ou alumínio, muitas acabam em aterros ou em incineradoras, permanecendo baixa a sua reciclagem. A baixa circularidade e reciclabilidade das cápsulas, bem como o risco de contaminação dos resíduos orgânicos destinados à compostagem, contribuíram para que estas passassem a ser enquadradas como embalagens.

Assim, a partir de dia 12 de agosto, as cápsulas e as pastilhas de café passam a ser consideradas embalagens. Os fabricantes têm de garantir que são recicláveis, o que representa um desafio significativo. Não basta que o material de que são feitas seja potencialmente reciclável; é necessário que exista um sistema de recolha adequado e um processo de reciclagem tecnologicamente viável e economicamente sustentável.

Em Portugal, já existe uma unidade dedicada à reciclagem de cápsulas de café. No entanto, os sistemas de recolha existentes continuam a ser sobretudo locais e com pouca expressividade. Algumas marcas de café disponibilizam sistemas próprios para que os consumidores possam entregar as cápsulas usadas nas suas lojas e alguns hipermercados disponibilizam pontos de recolha.

Falta uma solução integrada e de escala nacional que garanta a recolha e valorização destas embalagens. Por outro lado, as cápsulas de café podem ser produzidas de material compostável certificado, o que oferece outras vantagens para o consumidor. Se certificadas, estas cápsulas podem ser valorizadas, podendo dar origem a biogás e a composto, e permitem valorizar em simultâneo as borras de café.

No entanto, estes materiais biodegradáveis são difíceis de valorizar nas centrais de valorização orgânica industriais. Por isso, mesmo certificadas, as cápsulas compostáveis continuam a necessitar de avanços tecnológicos e de articulação entre fabricantes, sistemas de recolha e operadores de gestão de resíduos. Novas indicações deverão surgir nos próximos meses. Até lá, a pergunta mantém-se: depois de beber o café, onde deve realmente ir parar a cápsula?