Editorial

Aquele retrato em Leiria

21 mai 2026 07:55

Celebra-se o degelo com novas exposições, concertos e visitas guiadas pelas ruas da memória. Os rituais da cultura devolvem- -nos oxigénio, abrigo e alimento

As cicatrizes estão à vista, mas passo a passo regressa-se à normalidade. Uma semana depois de a Marinha Grande voltar ao pinhal dizimado pelo vento para cumprir a tradição do Dia da Espiga, Leiria festeja o Dia do Município com a reabertura de vários espaços encerrados desde 28 de Janeiro, incluindo o Castelo, símbolo maior, e a Villa Portela, investimento inaugurado há menos de um ano que materializa a estratégia de apoio às artes defendida pela autarquia.

Não vai ficar tudo bem, não nos próximos dias e semanas, pelo menos, mas fecham-se capítulos e retomam-se narrativas, como um protagonista que recusa perder-se para sempre nas agruras do enredo. Celebra-se o degelo com novas exposições, concertos e visitas guiadas pelas ruas da memória, promovem-se encontros e reencontros. Os rituais da cultura devolvem-nos oxigénio, abrigo e alimento – acompanham-nos desde a madrugada da Humanidade e continuam a permitir-nos respirar, mesmo quando temporariamente só cabem numa Secretaria de Estado ou têm de partilhar quarto no Ministério.

São rituais egoístas, como a imagem reflectida num espelho, e ao mesmo tempo altruístas, quando o individual ganha sentido no colectivo.

Esta sexta-feira, também a quarta edição do Tipo Passe marca o primeiro Dia do Município após a tempestade do século. Propõe a eternidade, descarta o efémero, procura o registo solene do retrato à la minute para tecer, com uma fotografia de cada vez, o documento do que somos como cidade. “Cada um diferente do próximo, iguais no acaso que nos torna únicos”.

No concelho viviam em 2024 mais 6 mil pessoas do que em 2021 e mais 9 mil do que em 2011, segundo dados do Pordata. Fora das estatísticas, a tendência será, provavelmente, ainda mais evidente. É um território em expansão, a que se chega pelo dinamismo da economia e pela riqueza e diversidade no sector da cultura. E um exemplo de solidariedade e força para transformar empatia em acção. A pandemia demonstrou-o e a depressão Kristin confirma-o. Quando tudo parece ruir, há uma rede que ampara. Comunidade. Comemora-se a 22 de Maio.