Opinião
Artes Visuais | Para quê?
Sobre pintar, nunca me senti satisfeito por completo, com o que li, ouvi ou pensei, e por isso estou sempre à procura de mais respostas, na esperança de um dia me encontrar saciado. A maneira mais frutífera tem sido ouvir o que os meus pares respondem
Há quatro perguntas sobre pintar, que me inquietam desde o meu tempo de escola. Como?; O quê?; Porquê? e Para quê? Nunca me senti satisfeito por completo, com o que li, ouvi ou pensei, e por isso estou sempre à procura de mais respostas, na esperança de um dia me encontrar saciado. A maneira mais frutífera tem sido ouvir o que os meus pares respondem a estas mesmas questões. Neste texto partilho as respostas do pintor Nuno Viegas (Almeida, 1977), que tem a decorrer a exposição Mulheres, na Livraria Arquivo.
Como? - Misturo sobre papel e tela materiais que não são convencionais e que não são feitos para estarem misturados, tintas à base de água com tintas à base de óleo. Isto cria reações químicas no momento, mais ou menos inesperadas, e o meu trabalho incide nisso, no acidental. Desenvolvo também trabalho com canetas de feltro. Algumas com base alcoólica, outras com base aquosa. Algumas que serão queimadas pelo sol facilmente, outras menos. Uso isso duma forma consciente, o trabalho tem um lado efémero, quer dizer, trabalha com o lado efémero, sabendo que a obra é perecível. É feito a pensar no momento e a pensar no processo. Insisto muito no lado processual, porque é o partido que eu tiro da coisa, e no fundo é aquilo que eu quero comunicar quando a coisa é vista.
O quê? - O meu trabalho é uma reação à realidade. A realidade é uma espécie de entidade que não me convence, que vive do acordo democrático entre todas as cabeças que caminham sobre o planeta. A arte vai num sentido diferente, é o desacordo, é a subjetividade, ou seja, é a reação espontânea do indivíduo, àquilo que o rodeia, sem ter nenhum propósito de acordo com o resto da comunidade. O meu ponto de vista não é de confiança, não é tão sólida como parece, não é tão rígida como parece. A nível subjetivo, é uma matéria plástica suscetível de ser manipulada. O meu trabalho é sobre o absurdo, e como reagir ao absurdo, à falta de respostas concretas em relação aos enigmas do universo e ao desconhecido. Aquilo que eu faço é, eticamente, a resposta legítima à existência.
Porquê? - A arte aparece na minha vida não como propriamente uma escolha, é uma coisa que sempre me acompanhou. Eu faço num sentido de responsabilidade em relação ao talento com que nasci. Faço isto para corresponder a essa espécie de dádiva que o universo me deu. Não há um porquê mais honesto do que, faço porque me sinto numa obrigação de o fazer. De outra maneira, seria um desperdício. Do ponto de vista existencial, a arte, ou qualquer espécie de resposta criativa ao mundo e à vida, é a forma mais legítima de existir, porque é aquela que aceita que é tudo uma ilusão, um jogo. Portanto, se é tudo um jogo, a melhor maneira de jogar é propor outro jogo. Um que não visa ganhar nem perder. Visa estar em consonância com a construção da ilusão. Torna-se numa espécie de antídoto. Se te dão ilusão e tu respondes com ilusão, cria-se aí como que um antídoto.
Para quê? - É para usar o tempo que eu tenho de vida da melhor maneira e na melhor das hipóteses conseguir transmitir a necessidade e a importância de fazer arte. O comentário: - dás-me vontade de pintar -, faz-me sentir que o trabalho está feito. Surge um germe dessa necessidade, para muita gente por causa da euforia das cores, pela liberdade das formas, ou pelo prazer visual e sensorial. Se o trabalho viajar da minha subjetividade para outra subjetividade e de alguma maneira fizer um clique na cabeça dessa outra pessoa, ali acontece a verdadeira comunicação. Quando vês um filme ou uma pintura e sentes que podias ter sido tu a fazer ou quando lês um livro e parece que o escritor sabe como é que tu pensas. O para quê mais essencial é esse, para continuar a espalhar o vírus. O mundo precisa de arte mais desesperadamente do que quero admitir e no meio do absurdo cada vez maior da realidade que nos rodeia, o absurdo que a arte propõe, é o único que é saudável.
