Opinião
Kinematográfico | Backrooms: quando a internet encontra o cinema
Há filmes que parecem nascer de um estúdio. Backrooms, de Kane Parsons, parece nascer diretamente da internet. Embora a longa-metragem seja um objeto cinematográfico refrescante e singular, dificilmente conseguirá replicar a estranheza da experiência original vivida na era do YouTube.
Afinal, o fenómeno Backrooms começou muito antes do cinema, alimentado por imagens enigmáticas que circulavam nos primórdios da internet e pela imaginação coletiva que lhes deu significado.
Em 2022, Kane Parsons transformou esse imaginário numa série de 24 episódios publicados no YouTube.
O primeiro, The Backrooms (Found Footage), rapidamente se tornou viral, acumulando dezenas de milhões de visualizações e conquistando uma receção amplamente positiva.
O filme expande esse universo sem perder a sua identidade.
Uma das maiores surpresas continua a ser o próprio Parsons. Além de realizar, compõe também a banda sonora, num verdadeiro exercício de "one man show".
A música é um dos pilares da experiência, amplificando a tensão e o mistério sem nunca se impor em demasia. Como criador, é impossível não sentir inspiração perante alguém que domina tantas áreas da produção artística com uma visão tão coesa. Também a direcção artística merece destaque.
O design dos espaços transforma o absurdo em fascínio: portas que conduzem ao vazio, objetos colocados em posições impossíveis, divisões interrompidas a meio ou parcialmente engolidas pela arquitetura criam uma lógica visual desconcertante.
É um filme que faz do cenário uma personagem, oferecendo uma identidade estética rara para quem procura algo verdadeiramente diferente.
No final, Backrooms funciona sobretudo como uma poderosa metáfora sobre o desconhecido, a solidão e a necessidade humana de encontrar sentido.
Não esperem respostas para todos os mistérios. O seu maior triunfo está precisamente em deixar perguntas por responder, permitindo que o filme continue a ecoar muito depois dos créditos finais e convidando-nos a regressar mentalmente aos seus corredores infinitos.