Opinião

Cinema | 2 + 2 = 5

16 jan 2026 08:15

A vida e obra de George Orwell misturam-se nesta aparente (mas natural) transição da realidade biográfica e histórica para a ficção

Será, talvez, um lugar-comum pouco original afirmar que a realidade transcende a ficção. Sê-lo-á ainda mais quando se vive numa época de contornos distópicos; o que se por um lado apenas enaltece a imaginação dos autores mais audazes, por outro pode levar-nos a ficar estarrecidos com a enormidade da estupidez humana.

Uma leitura cuidada dos jornais ou navegar atentamente por entre as informações do noticiário televisivo (através do lodo dos omnipresentes comentários e comentadores), deixam antever uma realidade em que obras como Nós, de Zamiatine, Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, Fahrenheit 451 de Ray Bradbury e, obviamente, 1984, de George Orwell, são assustadoramente oraculares.

George Orwell, pseudónimo de Eric Arthur Blair, inglês nascido na Índia Britânica (uma colónia do Império, em 1903) será talvez das vozes que mais incisivamente exprimiu posições contra o totalitarismo e o imperialismo. O seu próprio percurso, que passou, em momentos radicalmente opostos, por pertencer às forças da autoridade como membro da Polícia Imperial na Birmânia (atual Myanmar) e combater na guerra civil espanhola ao lado das forças do POUM (Partido Operário de Unificação Marxista) ter-lhe-ão dado ferramentas para defender uma postura crítica, mas informada, acerca dos mecanismos do poder e das ideologias autoritárias e repressivas.

Em Orwell 2+2=5, filme do haitiano Raoul Peck, a vida e obra de George Orwell misturam-se nesta aparente (mas natural) transição da realidade biográfica e histórica para a ficção.

Raoul Peck segue uma estratégia bastante semelhante àquela levada a cabo no documentário Eu Não Sou o Teu Negro (I Am Not Your Negro, 2016), montado a partir de textos de James Baldwin, para expor o racismo na história norte-americana.

Desta feita, Peck recorre aos escritos de Orwell (diários e cartas, maioritariamente), lidos na primeira pessoa pelo ator Damian Lewis, para, lentamente, transformar o que começa por ser uma biografia de Eric Arthur Blair num manifesto político alinhado com o pensamento do autor, recorrendo à forte iconografia e imagética de Orwell. O 2 + 2 = 5 do título é, aliás, uma alusão direta ao controlo ideológico que, em 1984, o Partido exerce sobre a população, forçando as pessoas a abandonar a evidência dos sentidos e admitir qualquer afirmação indicada pelo Partido, mesmo que seja claramente contrária à lógica.

Guerra é Paz, Liberdade é Escravidão, Ignorância é Força, os slogans do Partido, do 1984 de Orwell, servem de moldura a um desfilar de imagens de arquivo, muitas da atualidade recente, que sob a batuta dos textos do inglês, muitas vezes contextualizados com as suas próprias experiências biográficas, levam o espectador a colocar em perspetiva e a colocar em causa o absurdo do poder institucional, económico e mediático.

O filme acaba, na realidade, por se perder um pouco nesta constante “colagem” entre arquivo, história, animação e biografia, exigindo uma atenção e um conhecimento prévio que nem todos os públicos poderão possuir. Mas não será esse também um crivo e o propósito do realizador? É necessário um espírito crítico e importa relembrar que, enquanto alguém insistir que 2 + 2 = 4, o jogo ainda não está perdido.