Opinião

Cinema | Mais que um acidente

25 mai 2026 12:01

Não oferece respostas fáceis nem consolo. “Termina” duas vezes, e em ambas deixa o espectador exaurido. É cinema de resistência no seu melhor

Uma avaria no carro, fruto de um acidente com um cão, leva uma família a pedir auxílio a desconhecidos, a meio da noite. O patriarca da família, ao deslocar-se, origina um ruído característico, causado por uma prótese na perna. Vahid, um dos homens que acode a família, julga reconhecer, pelo som da prótese, o homem que o torturou violentamente, quando esteve preso por motivos políticos. O terror é apenas equiparável ao desejo de vingança e, apesar da dúvida que o assalta, já que esteve sempre de olhos vendados, durante a tortura, decide fazer justiça. Mas a dúvida persiste. Vahid não está seguro que aquele seja efetivamente o homem que o torturou e hesita em executá-lo sem antes procurar ajuda de outros que estiveram na mesma situação, para realizar a identificação.

Jafar Panahi, conceituado realizador iraniano, ele próprio detido várias vezes por “ações de propaganda” contra o estado, retorna com este Foi Só Um Acidente (Un Simple Accident, 2025), que lhe valeu a Palma de Ouro em Cannes e a nomeação a melhor filme estrangeiro nos Óscares (e uma nova condenação, atualmente a ser contestada, pelo autor). Talvez por ser (como filmes anteriores do realizador, aliás) filmado ilegalmente e protagonizado por atores amadores, sente-se uma autenticidade e verosimilhança inquietantes no argumento, na narrativa, na representação e no desenrolar da trama.

Foi Só Um Acidente capta um drama sério e perturbador, temperado com algum humor inteligente e dissimulado, um absurdo que se diria cómico, mas a roçar o desespero. Panahi não se limita a acusar o regime, exemplifica como o ciclo de violência corrói por dentro mesmo aqueles que lhe sobreviveram. Até onde vai o direito à vingança? E se, ao tomar a justiça nas próprias mãos, a vítima se tornar uma réplica do algoz? Estas questões pairam ao longo de todo o filme, mais como inquietação filosófica e exercício de resolução do trauma, sem que na realidade encontrar uma qualquer resposta seja o objetivo final deste trabalho.

A dualidade entre vingança e perdão, entre violência e clemência, atravessa todo o filme e revela, de alguma forma – ou permite intuir – o espírito da sociedade iraniana (ou pelo menos, o espírito dessa sociedade antes dos recentes ataques americanos e israelitas). Foi Só Um Acidente não oferece respostas fáceis nem consolo. “Termina” duas vezes, e em ambas deixa o espectador exaurido. É cinema de resistência no seu melhor: urgente, necessário e devastador.