Opinião
Cinema | Papa’s got a brand new bag
Se há algo que os americanos fazem bem, é recordar. Valorizar a memória e o sacrifício. Quem já teve de viajar de avião nos EUA e ouvir o nome dos ”veteranos” com quem partilham o voo e o clássico thank you for your service entende o que quero dizer
Se há algo que, inegavelmente, os norte-americanos fazem bem é defender o seu “legado histórico”. Seja lá isso o que for para um país que existe como tal há cerca de 250 anos e cuja bandeira de land of the free and home of the brave atropela tantas ou mais vezes os conceitos de democracia e justiça quantas as que os alega defender. Sai este parágrafo assim, com um bocadinho de acidez, talvez pelo meu mau-feitio, ou talvez por me encontrar a falar destas coisas enquanto, do lado de cá do atlântico, uma juventude ousa, de mãos vazias, ir para a rua protestar e fazer frente a polícias à bastonada. Certo é que o que me leva a escrever sobre este filme (já lá vamos) tenha muito a ver com isto.
Diz-se que a nossa memória (enquanto povo) é curta e que “somos mansos”. Que a nossa ditadura “não foi bem um fascismo” e que comparados com os espanhóis ou franceses “somos uns meninos”, o que se calhar até é verdade enquanto não se puserem uns contentores de lixo a arder ou se partirem umas montras, para se poder levar esta rapaziada a sério. Mas o que me interessa, aqui, é a parte da memória. Farei parte da última geração de portugueses (até à data) cujos pais tiveram de ir para a guerra. Matar ou morrer; cometer atrocidades em nome de algo em que não se acredita; abdicar dos princípios para sobreviver. Não sei se é a vossa definição de guerra, mas é a minha. E sim, somos fracos nisto: a lembrar, honrar, entender, cuidar daqueles que tiveram de abdicar da sua mocidade e muitas vezes do futuro para ir defender algo que não queriam nem acreditavam.
A guerra colonial para uns, a da independência para outros. De ambos os lados, juventudes perdidas e sombras negras que pesam na consciência para sempre – há quem lhe chame stress pós-traumático, há quem não lhe chame nada por falta de dinheiro para terapia e há que não queira sequer pensar nisso, porque, aparentemente, torna as coisas mais fáceis para os outros. Talvez por isso reconheça que se há algo que os americanos fazem bem, é recordar. Valorizar a memória e o sacrifício. Quem já teve de viajar de avião nos EUA e ouvir o nome dos ”veteranos” com quem partilham o voo e o clássico thank you for your service entende o que quero dizer.
Vem isto a propósito de Soul Patrol (2026), documentário de J.M. Harper, que conta a história de uma equipa de forças especiais inteiramente constituída por negros, na Guerra do Vietname. O próprio epíteto: “Soul Patrol” atribuído pelos camaradas, carrega uma significativa carga racista, numa altura em que, nos EUA, se viviam acesas disputas pelos direitos dos negros, marcadas, inclusive, pelo assassinato de Martin Luther King.
Construído sobre filmagens de 8mm dos soldados e imagens de arquivo, além de entrevistas com os sobreviventes durante o último encontro do pelotão, Soul Patrol recorre ainda a reconstruções e artifícios cinematográficos para contar a história deste grupo de jovens cujos caminhos se cruzaram por via do terror e da violência, mas cujas marcas da camaradagem perduraram pela vida fora.
Baseado no livro homónimo de Ed Emanuel e vencedor do prémio de realização em Sundance, Soul Patrol consegue viver além da “americanice” do tema e do viés nacionalista típico deste tipo de filme, para se tornar num belo documento à memória daqueles homens, ao seu percurso e às suas relações.