Opinião

Cinema | Sonhos em forma de nuvem

17 jul 2026 10:57

Haugerud filma sem grandes gestos: planos fixos, muitos (e bons) diálogos, com tanto de verosimilhança como de mise em scène. Uma fotografia fantástica, excelentes planos e um trabalho de iluminação que suportam maravilhosamente o argumento

Porque se impõe já um certo aroma a férias, cedi à modorra e à indolência e, ao invés de perseguir um filme, deixei que o filme me escolhesse a mim. Foi desta forma inesperada e preguiçosa (mas com o mesmo prazer egoísta e quase esquecido de entrar numa sala de cinema só porque sim, sem fazer a mínima ideia do filme que se vai ver) que me caiu no colo Dreams (Drømmer, 2024), filme do norueguês Dah Joahn Haugerud.

Dreams é parte da trilogia Sex / Drømmer / Kjærlighet ou Sex / Dreams / Love em inglês ou ainda Sexo / Sonhos / Amor, na língua de Camões, algo inspirada, segundo o autor, pela trilogia das cores de Kieślowski. Não que eu fizesse a mínima ideia disto que vos conto antes de me sentar para ver o filme e escrever este texto (pelo menos no que concerne à trilogia de Haugerud – acredito que a de Kieślowski sirva de inspiração a muita gente) mas.. fica aqui a informação, sem custo adicional. De nada.

Haugerud terá filmado a sua “trilogia de Oslo” num curto espaço de tempo (todos os filmes têm data de produção de 2024), ainda que, na realidade, os 3 títulos possam ser vistos independentemente e não apresentem, estruturalmente, ligação entre si. Uma vez mais, recordo-vos, papagueio o que li, porque, como já confessei, apenas vi Dreams, e muito provavelmente porque valeu ao norueguês um inédito Urso de Ouro no Festival de Cinema de Berlim, o que, diga-se de passagem, é sempre boa propaganda.

Dreams abre com uma escadaria perdida no nevoeiro e uma voz feminina a murmurar que a sua vida está "dentro de uma nuvem". É esta cena que define tudo o que se segue: Haugerud filma o primeiro amor como quem observa nuvens, de forma etérea, sem contornos fixos, em mudança, mediante quem observa e a que distância.

Johanne tem apenas 17 anos e apaixona-se pela professora de francês, Johanna. Depois de tudo terminar, decide escrever a história desse fascínio. É o seu primeiro amor, com toda a beleza, inocência e sofrimento que os primeiros amores carregam. O manuscrito acaba nas mãos da mãe, Kristin, e da avó, Karin, poetisa já em fim de carreira. As duas leem-no com espanto, oscilando entre o receio do abuso da menor, a dúvida acerca da veracidade do relato e a admiração pelo poder literário do texto.

Haugerud filma tudo isto sem grandes gestos: planos fixos, muitos (e bons) diálogos, com tanto de verosimilhança como de mise em scène. Uma fotografia fantástica, excelentes planos e um trabalho de iluminação que suportam maravilhosamente o argumento. A voz de Johanne acompanha, em off , boa parte do filme e há alguma crítica que aponta este excesso, mas é na realidade esta “técnica” que torna o filme mais pessoal, mais introspetivo, mais sensível. E precisamente por ouvirmos a descrição na voz da protagonista assalta-nos também a dúvida. Estará Johanne a romancear? A viver sôfrega e intensamente o seu primeiro amor? Ou apenas a criar uma narrativa para desviar o foco do que realmente aconteceu?

Dreams não resolve nada disto, e talvez seja por isso que se prolonga dentro do espectador depois do último plano. Continuamos, como Johanne, dentro da nuvem, sem saber bem onde acaba a memória e começa a invenção, mas também sem grande vontade de descobrir.