Opinião
Clara Leão: Estar atento, fazer mais
Precisamos de estar atentos e dar importância ao tanto que se passa no mundo e sobretudo à nossa porta, nos pequenos desprezos, na rejeição encoberta, na crítica maldosa, no gozo
Setembro é o mês de preparar o recomeço que Outubro traz. É tempo de prestar atenção ao que a pressa das férias deixou para depois e de reflectir sobre o que fizemos num ano de trabalho e em como o fizemos, sobre o que não chegámos a fazer e o que deveria ter sido mais bem preparado, sobre as posições que tomámos e o que ficou por afirmarmos ou defendermos. Na ânsia do Sol, da família e dos amigos, deixámos essa contabilidade para depois, correndo o risco de recomeçar sem termos a casa devidamente arrumada.
Fazer melhor é importante e será certamente com essa determinação que todos nós recomeçamos, mas é necessário que possamos primeiro encontrar e analisar as falhas e as virtudes da nossa acção, para reflectirmos depois sobre o que devemos manter ou alterar. Não se trata, em princípio, de uma mudança radical ou de alguma descoberta excepcional que provoque uma revolução, mas de ajustar escolhas ou modos de fazer, de decidir o que merece mais empenho, ou de reconhecer que descurámos algo a que deveríamos ter atribuído maior importância.
Por artes do algoritmo que nos vigia as curiosidades, as preferências e as descobertas, comecei a receber, durante o Verão e em ritmo quase diário, primeiro uma ou outra, depois com mais consistência e variedade, informação, da época, sobre a atrocidade que foi o Holocausto. Depoimentos de quem se salvou, relatos de quem os foi libertar e imagens, em filme e fotografia, daquilo que foi sendo encontrado.
Como todos nós, sei, há muito, o que foi esse período negro. Conheço as motivações e os delírios, fui informada sobre as atrocidades, li histórias e li a História, identifiquei os culpados pela acção, e pela omissão; mas nunca foi assim, nunca de forma tão crua e tão real quanto o são as vozes, as expressões, o olhar, a paralisia da incompreensão e do medo e o lento movimento dos corpos maltratados enquanto, para mim, o sol brilhava e o corpo descansava tranquilamente. Cruel, desalmado, brutal, sem piedade. Permanece inimaginável o terror, a dor, o abandono, e a total desesperança.
Permanece a incompreensão de como pode um ser humano olhar para outro e não o ver como tal. Durou anos. Começou lentamente e ficou na memória colectiva como um acontecimento hediondo perpetrado por um louco que foi ganhando escala, apoiado por apaniguados militantes, e adeptos indiferentes. Mas onde estavam e o que fizeram os outros, os sãos, nos alvores desse horror?
Talvez onde muitos estamos agora, crentes de que pequenas coisas não são o todo, levantando apenas pequenas vozes ao ver-se um semelhante não ser tratado como tal, ou esperando que situações de exclusão e desconfiança se acalmem e se resolvam em melhores dias. Não. É assim que sempre tem começado. O ser humano é perigoso, precisamos de estar atentos e dar importância ao tanto que se passa no mundo e sobretudo à nossa porta, nos pequenos desprezos, na rejeição encoberta, na crítica maldosa, no gozo. O ser humano é preguiçoso a levantar a voz, estejamos atentos a nós próprios.