Opinião
Classificados de ocasião
Comprei umas sessões de coaching online, pelos vistos acertei no investimento, certificados de aforro não rendem nada e eu estou rendida aos ensinamentos valiosos de malta que pensa por mim
VENDE-SE dor recentemente renovada. Com vista mar desafogada e vista para o deserto afogada em álcool. Recuperada com recurso a desilusões premium e a isolamento topo de gama. Totalmente pintada em tons de falhanço empastelado. Necessita coração afagado, não foi possível adjudicar o afago em tempo útil - parcela abatida no valor final. Negócio imperdível. Preço abaixo do mercado pela urgência do proprietário. Contacte-me para agendar visita (disponível apenas em horário pós-terapia).
- Não vais acreditar, comprei uma dor nova! Estou mesmo feliz. É uma dor talhada à minha medida, percebi logo. Acredito piamente que estava à minha espera, reservada nos meandros do destino para me vir parar às insónias. Nada é por acaso, como bem apregoam os gurus sintetizados em laboratório. Comprei umas sessões de coaching online, pelos vistos acertei no investimento, certificados de aforro não rendem nada e eu estou rendida aos ensinamentos valiosos de malta que pensa por mim. E se faz pagar por isso, acho muito justo e até bastante em conta.
- Conseguiste! Alcançaste finalmente uma dor que ninguém te tira! É tua, podes pintá-la de várias cores bipolares, alargar divisões fracturantes, passar o chuveiro para o telhado, grafitar a garagem com insultos ao amor, presidir ao condomínio em que deves tudo a ninguém. É um património que fica, perdura, um dia engrossará o elenco dos bens indivisos que mais vale deixar ao abandono até ruir. Uma maravilha! Tu mereces, pá.
- Mas olha, precisava aqui de uma ajuda com a mudança. Não quero pedir-te, sei que tens uma vida isenta de dias doridos, alinhada com a felicidade rectilínea de quem escolhe não sentir. Encaixotar mágoas e recordações tristes é tarefa para quem as amontoou, não se pede ajuda para carregar pesos que dão cabo das costas a quem gosta de nós. Não, não, está fora de questão, não insistas sequer. Vou contratar uma empresa de mudança de dores, conheces alguma de confiança que possas recomendar?
Hoje é o meu primeiro dia na dor nova. Ainda não sei da escova de dentes, cuecas lavadas hão-de estar no caixote onde escrevi “precisos prementes” com edding negro. Está por aí, depois procuro. Urgente é ligar o combinado e fazer gelo, já cai a noite e a primeira nunca se esquece. Que grande negócio, que sorte a minha, o gelo já está? Falta no gin, na mialgia de esforço, nas têmporas a rebentar de entusiasmo. Amanhã começo a pôr ordem nisto. As telas em cores de ganza, o preto e o branco em k-line, as cinzas cinzentas do cão no pote, o voodoo dos alfinetes vermelhos, as bocas emolduradas, o vinil que empanca naquele risco mais fundo, as esperanças morridas, as edições de autor pré-obituárias, um ou outro candeeiro de pé manco, uma ou outra vontade de partilhar a dor nova com quem já muito nos falou das suas muitas dores velhas.
Desencaixotemos o espólio de caos que encontrou casa aqui. Sem ajuda. Porque a mudança é de quem muda, não é de mais ninguém. Tão logo amanheça o dia novo, uma luz impossível há-de jorrar pelo buraco aberto sobre a banheira, pela sacada da dor remodelada, a cheirar ainda a choro fresco. Mais airosa, quase bairrista, com um afinco arreigado de classe-baixa das dores, faca nos dentes, assobio ao desafio e ginga vadia. Há-de ser covil seguro de gente indigente, despejada de outras dores precárias com obrigações em atraso, sem apelo nem agravo.
Dou graças pela conquista, mas a verdade é que não conto demorar-me aqui. Quando o sol de setembro baixar sobre os dias pequenos, plasmo o paleio e mantenho o preço. Sai anúncio outra vez. Fiquem atentos, pode ser que consigam arrebatar a pechincha.