Opinião

Cultura nos municípios: luxo ou direito?

23 out 2026 21:00

No fundo, a pergunta não é se podemos pagar a cultura. É se podemos pagar não a ter. Porque quando faltam médicos e professores, a cultura não é o problema. É parte da solução

Percebo pouco de política; a minha praia é mais produção e dramaturgia. Por isso, “política cultural” soa-me sempre a conceito abstrato. Mas quando faltam médicos e professores, falar de cultura pode parecer descabido. Desnecessário. E precisamente por isso é que temos de falar.

São as políticas culturais que constroem comunidades mais coesas e conscientes de quem são. Ignorá-las é tornar a cultura um luxo em vez de um direito e impedir que seja motor de desenvolvimento e de democracia. Penso no Festival Internacional de Teatro É-Aqui-in-Ócio, na Póvoa de Varzim, que leva espetáculos a freguesias e espaços não convencionais. Ou no Paredes no Palco, que junta 11 associações culturais e 16 protocolos com gruspos de teatro. Não são eventos isolados: são política cultural a acontecer. 


Cada município tem a sua história e identidade. Sem políticas culturais, o património fica ao abandono. E quando se abandona o património, perde-se a memória coletiva e aquilo que faz de um território uma casa. A cultura também é motor económico e social: atrai visitantes, dinamiza o comércio, cria emprego e ajuda a fixar população.

Idanha-a-Nova tornou-se a primeira Cidade Criativa da Música em Portugal e a primeira zona rural na rede da UNESCO. Óbidos desenvolveu-se pela literatura com o FÓLIO. Santa Maria da Feira fez do teatro um motor de desenvolvimento, com o Imaginarius.

Mas política cultural não é apenas financiar eventos; é planeamento, articulação com educação, turismo e ação social. É formar públicos, apoiar a criação local e avaliar.

Se a importância é tão clara, porque é que tantos municípios continuam a não investir? Arrisco algumas possibilidades.

Primeiro, a cultura continua a ser vista como despesa. Financia-se “se sobrar dinheiro”. E como os resultados não são tão visíveis como uma estrada ou um polidesportivo, tornam-se politicamente menos rentáveis.  

Depois, há problemas “mais urgentes” e a cultura fica sempre em último lugar. Há falta de técnicos e de planeamento, e a política cultural reduz-se muitas vezes a eventos pontuais e animação para festas. Sem diagnóstico. Sem estratégia. Sem avaliação. 

Acresce a desvalorização: ou a cultura é “coisa de elites” ou é apenas “entretenimento”. Uma visão exclui, a outra banaliza.

Por fim, falta pressão cívica. Sem comunidades que exijam políticas culturais continuadas, muda o executivo… e lá se vai o planeamento.  

Nada disto é inevitável. Há municípios que provam o contrário. Mas exige recursos, competência, visão e, sobretudo, vontade política.  

No fundo, a pergunta não é se podemos pagar a cultura. É se podemos pagar não a ter. Porque quando faltam médicos e professores, a cultura não é o problema. É parte da solução.

Texto escrito segundo as regras do Acordo Ortográfico de 1990