Opinião
De pé com as mãos | O Sol como leprosário
"É preciso coragem para ser um tomate de boi num mundo que só quer tomate-cereja todo igual, todo perfeito. É preciso coragem para se ser grande, imperfeito, cheio de sumo, desajeitado, e amadurecer ao sol em vez de amadurecer na prateleira"
I A Carne da Terra
Tomates.
De boi.
Coragem.
Três nomes. Só de os ler assim, separados,
já é um poema inteiro.
Tomates. No plural. Nunca é um só. É
sempre abundância, é o Verão em cima do
balcão da cozinha, é coisa que amadurece
com o tempo e tem de ser colhida no dia
certo. É vulnerável – pele fina, rebenta com
facilidade. Não é fruto para quem tem
pressa.
Sabe ao rigor com que a luz cessa.
De boi. É o genitivo que muda tudo. Não é o
boi, é de boi. Pertence-lhe. Ao animal
grande, de olhos brandos, que leva a vida toda sem se
queixar. O boi não é o touro bravo, é a força
sopesada. Paciente. E o tomate que é
“de boi” é justamente o mais imperfeito de
todos – o coração de boi. Grande, torto,
com cicatrizes, nada redondinho de
supermercado. E, ainda assim, é o mais
saboroso. Sangue da terra,
secreto e vagaroso.
Coragem. Que vem de cor, coração e agem
- agir com o coração. Não é ausência de
medo. É fazer como o tomate: ficar
vermelho mesmo sabendo que a pele fina dói.
É fazer como o boi: avançar, lento, pesado,
bonançoso, mas avançar.
Eis a coragem: este rumor de gado
que leva o coração ao gume do prado.
Juntos os três nomes dizem isto:
É preciso coragem para ser um tomate
de boi num mundo que só quer
tomate-cereja todo igual, todo perfeito. É
preciso coragem para se ser grande,
imperfeito, cheio de sumo, desajeitado, e
amadurecer ao sol em vez de amadurecer
na prateleira.
Nunca metade. Ser terra inteira.
Tomates de boi. Coração de boi. Coragem
de gente.
II
O Canto e o Abismo
É preciso ter coragem para dizer o que
ninguém ousa dizer: que o Sol,
o grande tirano da nossa metafísica ocidental,
tem de morrer.
Quem é que teve esta coragem de o fazer em
primeira pessoa, sem uma metáfora piedosa?
Nem Ulisses “que jamais mereceu ser o herói da Ilíada,
essa cobardia feliz e segura”, como afirma Blanchot. O
Ulisses de Blanchot quer ouvir as sereias e sobreviver. O
do Reininho quer ouvir e ir com elas.
No ensaio “Le chant des sirènes”,de Le
Livre à venir, o Blanchot não vê as sereias como
uma cena bonita da mitologia. Vê como a
imagem do acto de escrever.
O canto é uma voz inumana, estranha ao
ouvido mortal, um apelo que vem de fora.
Promete saber total – “vem, vais saber tudo”
– mas quem cede morre.
Uma navegação por essa região
nebulosa onde se ouve o canto das
Sereias e se corre o risco do
desaparecimento.
Canto do abismo que, uma vez ouvido,
abria em cada fala uma voragem e
convidava fortemente a nela
desaparecer.
A solução de Ulisses – tapar os ouvidos dos
marinheiros com cera e mandar que o atem
ao mastro – é para Blanchot a figura do
escritor: aquele que quer escutar a origem,
o fora, sem se dissolver por completo.
Escrever é manter-se nessa tensão: ouvir o
canto e não sucumbir. Mas só o facto de
ouvir já é começar a desaparecer.
“Morte ao Sol”
O que escreve Reininho é toda uma recusa da
luz. Declarar-lhe a morte, e por voto directo,
é um acto político e poético. É dizer: prefiro a noite,
o nevoeiro, a voz rouca que só sai quando o céu se fecha
sobre nós.
É dionisíaco, no sentido em que o
Reininho sempre usou: Bataille, decadência,
prazer no pavor.
Ao contrário do Ulisses de Blanchot,
o Reininho recusa o truque do mastro. Ele
não quer ouvir com seguro de vida. Ele quer a
“overdose de pavor”, a “metamorfose de
horror”. Não quer ser o marinheiro que volta
a casa mais sábio. Quer ser o que fica.
Por isso a canção é tão blanchotiana sem
nunca citar Blanchot. Não é um homem a
falar sobre sereias. É um homem que se
pôs do lado das sereias e que agora canta
para nos chamar a nós. Ele já não ouve o
canto. Ele é o canto.
A poesia do Reininho não se lê com os olhos;
herda-se pelo ouvido.
Ao recusar o mastro e a cera,
Reininho regressa à origem pré-filosófica:
aquela região nocturna onde a fala
dos poetas cegos que cantavam de memória
antes de existir a escrita
era tudo o que tínhamos no escuro.
Daí o gozo estranho do “Felizmente”, do
“Ainda bem”, do “Estou contente”. Só se fica
contente com o fim da luz se o que se
deseja, no fundo, é o abismo que a luz
tapava.
III
O Assassinato do Fiscal
O Sol é o centro da nossa metafísica
ocidental desde Platão. Na República, o
Bem é o Sol – aquilo que ilumina todas as
ideias e torna o conhecimento possível. Daí
vem tudo: o logos apolíneo contra o
dionisíaco, Agostinho com a luz interior de
Deus, Descartes com a luz natural da Razão,
o Iluminismo inteiro a prometer que a Luz
vence as Trevas. Declarar morte ao sol é
declarar morte a essa cadeia toda.
Para Blanchot, o Sol é o mundo do dia,
onde a linguagem serve para comunicar e
explicar. A noite é outra noite, a que não
serve para dormir, mas para perder. As
sereias cantam a partir dessa segunda
noite.
O Reininho vota pela morte do dia
para que essa segunda noite possa
invadir o lugar. É a condição para que o
canto se torne audível.
Nietzsche foi o primeiro assassino. No
aforismo 125 n’A Gaia Ciência, o homem
louco grita: “desencadeámos esta terra do
seu sol?”. É literalmente a mesma cena do
Reininho, só que em 1882. Ele não diz que
Deus morreu sozinho – diz que “nós” o
matámos ao soltarmos a terra do seu sol. E
essa morte, para Heidegger, só pode ser
entendida não como teologia, mas como o
fim da própria filosofia como metafísica. O
Sol platónico apagado.
A diferença: Nietzsche anuncia, constata.
Reininho declara. É um acto de soberania
performativo, como quem assina um
decreto de guerra.
Se Nietzsche mata Deus/Sol, Bataille mata o
Sol por excesso. No La Part Maudite, o sol é
o grande doador que dá sem pedir retorno,
e que nos condena a uma economia de
desperdício, sacrifício e êxtase. A única
forma de ser livre dele é recusar o seu dom,
é sacrificar-se, olhar de frente até cegar. É
o único pensador do século XX que leva o
heliocentrismo metafísico ao ponto
de querer destruí-lo ritualmente.
Os poetas do crepúsculo.
Paul Celan: depois de Auschwitz, já não
há Sol que possa renascer sem ser
cúmplice. A sua poesia é toda pós-solar.
Beckett / Cioran: o sol é visto como torturador.
Cioran escreve que “só adoramos o sol
porque ele não nos deixa vê-lo”. Beckett
põe as suas personagens a desejarem a
noite como alívio.
Na música pop, quase ninguém. Há canções
sobre a noite, sobre a melancolia, mas
ninguém declara morte ao princípio
luminoso. Até os góticos adoram o sol como
inimigo estético. O gesto do Reininho é
punk no sentido mais filosófico: ele não
inverte a hierarquia – não diz “Viva a noite”
– ele executa o centro.
E faz isto em Portugal, país solar por
excelência, onde a identidade turística e
católica e optimista depende do Sol. Dizer
“morte ao sol” aqui, num refrão cantável,
nos anos 80 e 90, quando tudo à volta era
“Vamos viver o Verão”, é tão anti-metafísico
quanto o louco de Nietzsche na praça.
IV
A Ontologia do Nevoeiro
Rui Reininho nunca foi só um cantor. Foi um
herege. Filho único, criado no Bonfim,
ele entendeu que o rock
português não precisava de mais luz.
Precisava de nevoeiro. E Morte ao Sol é
a sua heresia mais maldita, mais acabada.
A letra abre com uma oração ao contrário:
“Felizmente que a noite sai / Ainda bem
que há névoa por aí / Estou contente se
a luz se esvai / E uma sombra invade
este lugar”
É o Reininho contra Platão.
Toda a filosofia
do Ocidente é heliocêntrica. Platão pôs a
Verdade lá em cima, no Sol das Ideias. O
Cristianismo pôs Deus na Luz. O Iluminismo
quis iluminar o mundo todo. Reininho faz o
gesto inverso. Um gesto gnóstico:
o criador do mundo material
— o Sol, o Demiurgo — é um tirano
ignorante.
A luz não nasce no céu.
Mora no escuro de nós.
Ele não celebra a noite por romantismo.
Celebra-a por lucidez. Porque a luz totalitária
do Sol é que revela “esta imagem atroz”. À
luz do dia, somos forçados a ser produtivos,
transparentes, optimistas, bronzeados.
O Sol aqui não é o astro. É Apolo. É a razão,
o dia, a verdade oficial, a moral, o amanhã
limpo e produtivo. É o grande fiscal. É o patrão.
É o chefe de serviço. É o Verão obrigatório.
A névoa, pelo contrário, é a condição da
penumbra e do mistério. Onde há névoa, há
interior. Há Porto. Há Bonfim em Novembro.
Há mistério.
Há entranhas.
A ontologia do amanhã
“Se um amanhã perdido for
metamorfose de horror / As trevas não
vão demorar”
Aqui Reininho é mais filósofo que muito
catedrático. Ele não teme o fim.
Ele teme um amanhã que seja tirado a papel
químico do hoje, a repetição, mas pior – “uma
overdose de pavor”. É o eterno retorno de
Nietzsche, mas sem alegria. É o tédio que o
próprio Reininho, o rei da pop-rock nacional,
cantou em Efectivamente, Bellevue ou
Pós-Modernos.
A Morte ao Sol não é, por isso, niilismo. É
profilaxia. Se o futuro que o Sol promete –
progresso, clareza, sucesso – já se anuncia
como horror, então que venha a noite
primeiro. Que a sombra nos invada. Mais
vale um luto escolhido que uma desilusão
imposta.
“Directa sim eu declaro morte ao Sol”.
Isto não é uma metáfora. É uma sentença.
Proferida com voz rouca, voz que se solta quando
“o céu se fecha sobre nós”.
É o homem que já
não quer ser iluminado. Quer ser abrigado.
Neste instante, Reininho deixa de ser o
vocalista do GNR e passa a ser o oficiante
de uma religião nocturna, muito portuguesa,
muito de Inverno.
Um culto que é, no fundo, uma canção de
amor à sombra. E só quem amou a sombra
- quem achou mais verdade às três da
manhã com nevoeiro na Foz do que ao
meio-dia em Agosto – a pode
compreender.
É o anti-hino solar de um país que teima em
vender luz quando aquilo de que o nosso íntimo
precisa é penumbra.