Opinião

Deixa-me estar calado | E se a Kristin nos deixasse uma cidade

16 out 2026 10:50

Imagino, por exemplo, uma linha de mobiliário urbano produzida com madeira das árvores derrubadas pela Kristin. Mas poderíamos ir muito mais longe. Podíamos até imaginar um espaço temporário — um “Laboratório Kristin” — onde artistas, designers, arquitectos, escolas e artesãos trabalhassem com materiais recuperados da tempestade e lhes dessem novas funções

Entre cinco e oito milhões de árvores foram derrubadas pela tempestade Kristin na região de Leiria. É difícil imaginar um número destes. São árvores que estavam de pé, faziam parte da paisagem, davam sombra, abrigo e identidade ao território. Agora estão no chão.

Haverá árvores para dar e vender.

E é precisamente aqui que talvez devêssemos começar a pensar de outra maneira.

É inevitável que muita desta madeira seja comercializada. Mas será que uma parte não poderia ter uma segunda vida entre nós?

Imagino, por exemplo, uma linha de mobiliário urbano produzida com madeira das árvores derrubadas pela Kristin. Bancos, mesas, floreiras, papeleiras, abrigos, equipamentos para parques e jardins.

E este mobiliário não teria necessariamente de ficar confinado a um único concelho. Poderia ser pensado para circular por todo o território afectado pela tempestade, levando consigo a memória comum da Kristin e criando uma espécie de património partilhado entre os municípios.

Mas poderíamos ir muito mais longe.

Madeira para parques infantis, passadiços, pequenas estruturas de sombra, quiosques, palcos para eventos, bancadas, mesas de piquenique, sinalética, brinquedos para escolas, peças para bibliotecas e centros comunitários.

Os troncos maiores poderiam ser entregues a escultores, artistas e artesãos para criar obras de arte pública. Poderiam nascer esculturas, bancos-escultura, instalações e peças que ocupassem praças, jardins e espaços públicos.

Podíamos lançar um concurso de design e convidar arquitectos, designers, escolas, artesãos e estudantes a imaginar os objectos e equipamentos de um território que renasceu de uma tempestade.

Cada peça poderia contar a sua própria história.

Uma pequena inscrição poderia dizer:

“Esta madeira nasceu de uma árvore derrubada pela Kristin.”

Seria uma forma de não apagar a memória da tempestade, mas transformá-la.

Mas também podemos olhar para além das árvores.

A Kristin não derrubou apenas florestas. Também destruiu telhados, janelas, portas, estruturas metálicas, muros e tantas outras coisas que agora serão tratadas como entulho.

E se também aqui procurássemos uma segunda vida?

Uma chapa metálica poderia transformar-se numa escultura. Uma estrutura de um telhado poderia tornar-se um abrigo. Uma janela recuperada poderia integrar uma instalação artística ou uma nova construção. Portas, pedras, madeiras e outros materiais poderiam ser recuperados e incorporados em equipamentos públicos.

Podíamos até imaginar um espaço temporário — um “Laboratório Kristin” — onde artistas, designers, arquitectos, escolas e artesãos trabalhassem com materiais recuperados da tempestade e lhes dessem novas funções.

Porque talvez a verdadeira questão não seja apenas  "o que fazemos com os estragos?"

É perguntar:

“O que podemos criar a partir deles?”

Há qualquer coisa de profundamente simbólico numa árvore que caiu durante uma tempestade poder voltar a fazer parte da vida das comunidades.

Talvez exista aqui uma oportunidade que normalmente não aparece quando tudo corre bem: a oportunidade de repensar materiais, criar, experimentar e envolver os vários concelhos afectados.

Talvez a verdadeira oportunidade esteja precisamente aí: transformar uma floresta caída e um território danificado em património que fica de pé.

Ilustração de Bruno Gaspar