Opinião
Deixa-me estar calado | Leiria perdeu o barco. Ou melhor, perdeu a bicicleta
As cidades, tal como as pessoas, não são definidas pelas vezes que caem. São definidas pela forma como se levantam. Gostava que Leiria fosse essa cidade
Há expressões que envelhecem bem. Diz-se que alguém “perdeu o barco” quando deixa escapar uma oportunidade. No caso de Leiria, talvez a expressão devesse ser actualizada: a cidade perdeu a bicicleta. Não falo da bicicleta enquanto objecto. Falo da ideia. Da possibilidade de uma cidade convencer os seus habitantes de que é possível viver de outra maneira.
Durante algum tempo pareceu que acreditávamos nisso. Surgiram bicicletas públicas, desenharam-se ciclovias, falou-se de mobilidade sustentável, de qualidade de vida e de uma cidade voltada para o futuro. Por momentos, parecia que estávamos a pedalar na direcção certa.
O projecto de mobilidade suave que envolveu os municípios de Leiria, Pombal, Caldas da Rainha e Ansião, em parceria com o Politécnico de Leiria, representou um investimento superior a um milhão de euros. Hoje, porém, a imagem é bem diferente: centenas de bicicletas permanecem imóveis e um projecto que prometia mudar hábitos parece caminhar para um final que ninguém desejava.
E o que fizemos?
Aquilo que os portugueses fazem, muitas vezes, quando um projecto falha: encolhemos os ombros.
“Não resultou.”
É uma frase perigosíssima. Porque, quase sempre, significa apenas isto: “não vale a pena voltar a tentar”.
Mas talvez nunca tenham sido as bicicletas o verdadeiro projecto. O verdadeiro projecto era mudar mentalidades. Era convencer uma criança de que pode ir para a escola de bicicleta. Era mostrar a um estudante que consegue chegar ao Politécnico sem perder tempo à procura de estacionamento. Era fazer um trabalhador descobrir que dez minutos a pedalar podem valer mais do que meia hora preso no trânsito. Era perceber que uma cidade não se mede apenas pelo número de automóveis que circulam, mas pela qualidade de vida de quem a vive.
No fundo, a bicicleta nunca foi apenas uma bicicleta. Era uma forma diferente de olhar para Leiria.
Confesso até uma pequena simpatia pelas campainhas das bicicletas. Nunca ouvi nenhuma ser usada para insultar alguém. Já as buzinas...
O que mais me custa é saber que Leiria reúne todas as condições para fazer muito melhor.
Tem uma dimensão quase perfeita para a utilização da bicicleta.
Tem ciclovias que continuam demasiado vazias. Tem uma população jovem. E tem uma das maiores riquezas que uma cidade pode desejar: o Politécnico de Leiria.
Todos os anos passam por ali centenas de jovens preparados para resolver problemas complexos. Concebem robôs, desenvolvem software, estudam inteligência artificial, desenham produtos e investigam soluções para os desafios do futuro.
Por isso, pergunto-me: como é possível que uma cidade com tanto talento nunca tenha transformado este sistema de bicicletas num verdadeiro laboratório vivo?
Porque razão este projecto não foi também um projecto académico? Porque não desafiar estudantes de Engenharia, Design, Informática, Gestão ou Comunicação a melhorarem continuamente o sistema? Porque não fazer da cidade um espaço de experimentação, inovação e aprendizagem?
Talvez esteja aí a maior oportunidade perdida.
Uma cidade inteligente não é aquela que compra tecnologia.
É aquela que cria soluções.
Mas tudo isto exige muito mais do que bicicletas.
Exige educação.
Nas escolas.
Nas famílias.
Nas ruas.
E até nos cafés, onde tantas vezes se resolvem — ou pelo menos se discutem — os problemas do mundo.
Imagino agentes da PSP a ensinarem as crianças a circular em segurança. Professores a organizarem semanas da mobilidade. Pais a descobrirem que dois quilómetros não justificam ligar um motor. Filhos a convencerem os pais de que vale a pena experimentar outra forma de chegar ao trabalho ou à escola.
As mudanças culturais começam quase sempre pelos mais novos.
E acabam por transformar os adultos.
No fundo, não estamos verdadeiramente a discutir bicicletas.
Estamos a discutir a cidade onde queremos viver daqui a vinte anos.
Uma cidade onde continuamos fechados dentro dos automóveis, cada um isolado na sua pequena caixa de metal?
Ou uma cidade onde as pessoas se cruzam, se cumprimentam, respiram melhor e redescobrem que a pressa nem sempre é a forma mais inteligente de chegar primeiro?
Ainda vamos a tempo.
As bicicletas podem voltar.
As empresas também.
Os projectos renascem.
O que não pode falir é a vontade de experimentar outra vez.
Porque há uma enorme diferença entre cair da bicicleta e desistir de pedalar.
As cidades, tal como as pessoas, não são definidas pelas vezes que caem. São definidas pela forma como se levantam.
Gostava que Leiria fosse essa cidade.
Uma cidade que não olha para um projecto falhado como um ponto final, mas como um rascunho. Que transforme um milhão de euros investidos numa aprendizagem e não num argumento para nunca mais tentar. Uma cidade capaz de envolver o seu Politécnico, as suas escolas, as empresas, as associações e os seus cidadãos na construção de uma mobilidade feita à medida de quem cá vive.
Quero terminar com uma nota pessoal.
Sou utilizador de quase todos os meios de transporte. Ando maioritariamente a pé e de bicicleta porque, no meu dia-a-dia, são as opções que fazem mais sentido. Tenho automóvel e motociclo, utilizo os transportes públicos sempre que respondem às minhas necessidades e viajo de comboio, avião ou barco quando é essa a melhor solução.
Ao longo dos anos tenho igualmente participado em diversos movimentos e iniciativas cívicas ligadas à valorização do património, da cultura e da identidade da nossa região. Talvez por isso acredite que as cidades evoluem quando a sociedade participa, propõe e ajuda a construir soluções, em vez de se limitar a assistir aos problemas.
Por isso, não escrevo estas linhas como um militante da bicicleta nem como alguém que acredita que existe uma única forma de nos deslocarmos. Escrevo-as como um cidadão que acredita na liberdade de escolha e que gostaria de viver numa cidade onde essa escolha fosse, efectivamente, possível.
Uma cidade inteligente não declara guerra ao automóvel.
Limita-se a deixar de depender exclusivamente dele.
Talvez Leiria tenha perdido a bicicleta.
Mas continua perfeitamente a tempo de a voltar a montar.
Daqui a vinte anos, ninguém se lembrará do nome da empresa que geria este sistema de bicicletas. Mas todos nos lembraremos da decisão que Leiria tomou quando o projecto falhou: desistir ou voltar a tentar.
Espero, sinceramente, que escolhamos voltar a pedalar.