Opinião

Deixa-me estar calado | O Orlando continua com um lugar à mesa

2 out 2026 08:04

Foi também através dele, das suas palavras e da sua forma de olhar para o território, que cresceu em mim o gosto pelas viagens, pela escrita e pela descoberta

Há pessoas que passam pela nossa vida e há outras que ficam sentadas à nossa mesa, mesmo depois de partirem.

Conheci o Orlando Cardoso em 2008, quando trabalhámos juntos no livro Terra de Pinhal e Mar — Crónicas de Viagem no Distrito de Leiria. Eu assumi a direcção artística; ele escreveu as crónicas. Foi também através dele, das suas palavras e da sua forma de olhar para o território, que cresceu em mim o gosto pelas viagens, pela escrita e pela descoberta.

O JORNAL DE LEIRIA foi também uma casa importante para os nossos encontros e para muitos dos projectos que partilhámos. Na altura em que o nosso amigo João Nazário era director do jornal, o Orlando aparecia muitas vezes por lá, sobretudo às quintas-feiras, dia de fecho da edição, para ajudar a rever textos. Eu também passava por lá de vez em quando para visitar a equipa. Entre palavras, correcções e conversas, havia sempre tempo para um tinto e um pedaço de pão com chouriço quando o trabalho ficava feito.

Foi também no JORNAL DE LEIRIA que acompanhei a sua poesia, através de dezenas de desenhos e pinturas que fiz para acompanhar os seus poemas. Eram outras formas de conversar, de trocar ideias e de continuarmos a trabalhar juntos.

Ficam as conversas na Livraria Arquivo, com Eça de Queirós por perto, e tantos outros momentos que, na altura, pareciam apenas coisas simples do dia-a-dia e que hoje ganham outro valor.

E fica também a Tasca da Ti Maria, em Porto de Mós, tantas vezes trazida para as nossas conversas. Falávamos daquele lugar, das farinheiras a chiar na brasa e dessas pequenas coisas que acabam por ficar na memória sem sabermos exactamente porquê.

Há ainda um retrato do Orlando que fiz há alguns anos. Um desenho que ficou guardado, à espera de outra ocasião. Hoje parece-me que essa ocasião chegou. Vou recuperá-lo para ilustrar esta crónica, como se, através daquele retrato, pudesse trazer novamente o Orlando para estas páginas e, de alguma maneira, voltar a sentá-lo à mesa.

É curioso como um retrato pode fazer isso. Guardar uma expressão, um olhar, um instante que julgávamos apenas nosso e que, com o passar dos anos, ganha outro significado. Olho agora para aquele desenho e já não vejo apenas a pessoa que retratei. Vejo também as conversas, as viagens, os livros, os poemas, os lugares e tudo aquilo que fomos deixando pelo caminho.

Quando voltar à Tasca da Ti Maria e ouvir as farinheiras a chiar na brasa, sei que vou provavelmente falar contigo, mesmo que seja em silêncio.

Porque há amigos que não se despedem.

Ficam à mesa.

E nós continuamos a viagem por eles.

Ilustração de Bruno Gaspar