Opinião
Entendimento
Quando as guerras começam, se é que alguma vez acabaram, é porque desistimos do entendimento. É evidência brutal num mundo que não o quer, nem de forma alguma o procura, devido à sua orientação para o capitalismo mental, pondo, selvaticamente, o nosso “lucro” psicológico no centro de todas as nossas ações e atenções
Há um capítulo no magnífico livro de David Uclés (A Península das casas vazias) em que vários escritores (Octavio Paz; Pablo Neruda, Hemingway, Malraux, Vallejo, Elena Garro, Maria Teresa León) procuram um entendimento que lhes permita seguir viagem e fazer “a coisa certa” no cenário trágico da Guerra Civil de Espanha. Não me parece que o tenham conseguido.
É esta a nossa sina.
Quando as guerras começam, se é que alguma vez acabaram, é porque desistimos do entendimento.
É evidência brutal num mundo que não o quer, nem de forma alguma o procura, devido à sua orientação para o capitalismo mental, pondo, selvaticamente, o nosso “lucro” psicológico no centro de todas as nossas ações e atenções.
Temos uma miríade sufocante de importadas filosofias e tecnologias para melhorarmos, mas estamos cada vez pior. Temos um tribunal de bolso, uma rede portátil de plataformas para nos comunicarmos, mas, cada vez mais reféns da nossa “opinião” e “bem-estar”, aumentámos a distância entre nós, numa rota sem fim ou indicações pelo caminho.
Quem muito acreditou, muito se desiludiu.
Nem todos os Cióran, Schopenhauer, Nietzsche, Camus ou Sartre que lemos nos podiam preparar para o histerismo de uma era (a nossa) que flutua entre as facas aguçadas do politicamente correto, com a distribuição gratuita de diagnósticos de vítimas a quem os apanhar; e o extremismo cuja verdade é mentira, cuja verdade é mentira.
O mundo foi feito para ser fácil.
Esta era de abundância financeira, tecnológica e cultural é um mero edifício vazio de gente, apenas habitado nos andares superiores por tecnocratas e intelectuais que não se cruzam, nem se deixam cruzar.
Temos um problema de habitação, de ocupação de cérebros e corações devolutos.
A nossa vida é uma oportunidade perdida de e para consensos.
Fronteiras reabrem, a polícia outra vez nas ruas, os parlamentos de férias físicas para descansar do vazio de ideias e nós, formiguinhas no carreiro, vemos, ouvimos e lemos e escolhemos ignorar.
Banda sonora: Talking Heads, "Road to Nowhere".