Opinião
Faith No More – We Care a Lot
Os elementos de funk, os riffs de guitarra característicos do metal e do hardcore e uma cadência vocal que devia mais ao rap do que ao rock fizeram desta malha uma referência e conferiram-lhe uma dimensão que só o tempo nos ajudou a perceber
Quando ouvi pela primeira vez “We Care a Lot”, dos norte-americanos Faith No More, fiquei fixado numa frase que era vociferada repetidamente: “It is a dirty job but someone’s gotta do it” (“É um trabalho sujo, mas alguém tem de o fazer”).
A voz poderosa era de Chuck Mosley que estava na banda desde 1983 (veio a falecer em 2017), mas Mike Patton entrou para o seu lugar em 1988. Diz-se que a emblemática canção que abria e que dava nome ao álbum de estreia do grupo em 1985 ironizava metaforicamente com as supostas falsas preocupações que levavam as estrelas pop a abraçar causas altamente mediáticas como o Live Aid, quando – segundo a visão dos Faith No More – o que provavelmente as motivava era a exposição e fama extra que ganhavam com isso.
Certamente que haveria também uma dose empática no meio de tudo isso, porém, na visão da banda, era muito ténue. Ora eu, do alto dos meus 14 anitos, e com o meu inglês ainda muito imberbe, estava completamente convencido de que a canção versava sobre as tarefas mundanas de determinadas profissões que ninguém gostava de ter, mas que eram absolutamente essenciais: as pessoas que desentopem fossas, os limpa-chaminés, os mineiros, os “homens do lixo”, as parteiras… Enfim, eu a ser um pré-adolescente sem capacidade de ir além do literalismo (a internet ainda era uma coisa que nem os filmes de ficção científica da época previram).
“We Care a Lot” ficou para a história como a primeira de muitas canções imprescindíveis que os Faith No More inscreveram na história do rock nos últimos 40 anos. Os elementos de funk, os riffs de guitarra característicos do metal e do hardcore e uma cadência vocal que devia mais ao rap do que ao rock fizeram desta malha uma referência e conferiram-lhe uma dimensão que só o tempo nos ajudou a perceber.
Eu era particularmente fã da voz de Mosley e estranhei imenso quando entrou para a banda o então jovem Patton. Depois, claro, como todos os renitentes da época, acabámos por nos render, não só à voz, mas também à genialidade do homem que, com Billy Gould, Mike Bordin, Roddy Bottum e Jon Hudson, tem trazido esta incrível banda até aos nossos dias.