Opinião
Flashbulb Memories: um dia em que a mãe do meu amigo morreu
Eu era um jovem estudante que vivia em Lisboa e lembro-me exatamente do local onde estava quando recebi aquela triste notícia e da vontade que tive em abraçar o meu amigo.
Eu e a minha mulher, devido ao desfasamento dos nossos horários de trabalho, decidimos criar um ritual de almoçarmos só os dois, quinzenalmente, sem filhos, sem distrações e com o tempo dedicado única e exclusivamente a nós.
Acaba por ser a nossa “terapia de casal” mas em vez de estarmos sentados num sofá de um consultório estamos sentados à mesa de um restaurante onde podemos provar novas receitas, novos vinhos e onde podemos também ter tempo para conversarmos só os dois.
Se os grandes empresários dizem que é à mesa que se fazem os grandes negócios, então acredito que também possa ser à mesa que se constroem algumas relações de afeto.
No primeiro almoço que fizemos, neste novo ano, falámos de algumas memórias que temos guardadas do nosso passado, as boas e as más.
Como um amigo muito próximo de mim celebra o aniversário por estes dias acabei por recordar a noite em que recebi um telefonema seu a contar-me que a mãe tinha falecido.
Eu era um jovem estudante que vivia em Lisboa e lembro-me exatamente do local onde estava quando recebi aquela triste notícia e da vontade que tive em abraçar o meu amigo.
É como se o nosso cérebro tirasse uma fotografia instantânea não apenas do evento em si, mas de todo o cenário ao seu redor: onde estávamos, com quem falámos, o que vestíamos e por vezes até o cheiro do ambiente fica registado.
Os especialistas deram-lhe o nome de Flashbulb Memories. Estas memórias flash acabam por estar muitas vezes relacionadas com a morte pelo impacto que isso nos traz.
Mas, por vezes, estas tristes notícias, também podem encontrar um caminho para uma boa memória.
No primeiro almoço do ano recordei o dia em que estava no Alentejo e recebi a notícia da morte da minha avó e o meu amigo se disponibilizou para interromper as suas férias e acompanhar-me até casa.
E também o dia em que este mesmo amigo decidiu viajar até à cidade da Guarda, na bagageira de um carro comercial, para conseguir estar presente no funeral do meu tio.
No fim do nosso almoço “terapêutico” a minha mulher sugeriu-me tirar uma fotografia na casa de infância do meu amigo, onde o abracei depois da morte da sua mãe e escrever-lhe uma carta a contar-lhe estas memórias e a importância que ele tem na minha vida.
Um almoço de terapia de casal que se transformou numa importante terapia da amizade.