Opinião
Gestação
Sei que te encho o sangue de acetona tóxica. Sei que sou corpo estranho no teu corpo. Estranho
Acolhe-me no teu ventre de luas assimétricas
De quartos dissonantes de astronomia vazia
E de ventre cheio de mim
Sou gestação tua e sei que te peso
Sei que te encho o sangue de acetona tóxica
Sei que sou corpo estranho no teu corpo
Estranho
Sei que disforme me carregarás com espanto
Resignado à fatalidade
De tanta deformação
E quando nado-morto me vires nascer
E quando a luz crua te mostrar que sim
Que eu sou assim feto-desgraça
Negação de todas as venturas
Bactéria que resiste e destrói
Vais com certeza embalar-me no enlevo
De quem toda a vida esperou por mim
Vais medir com cuidado
Os graus certos da água
De todos os banhos
E de lábios na testa
Vais saber se esta febre
Subiu ou cedeu
Vais dar-me na boca
Comida desfeita moída esmagada
Que devolvo bolsada
A cheirar a fel
Vais pedir baixinho
Lunático socorro
Ao santo em que crês
Vais saber por fim
Que ao viver por mim
Matas-me outra vez