Editorial
Habitação e imigração, o mesmo erro
O que está em causa é a desigualdade. Sem melhores condições de vida na origem, os imigrantes vão continuar a chegar. Sem coragem, o mercado imobiliário vai continuar a aquecer
Só no concelho de Leiria, o preço do metro quadrado subiu 83,6%, em média, desde 2022, segundo dados do INE até ao primeiro trimestre de 2026. No território da Região de Leiria, 76% durante o mesmo período. E, na Região Oeste, 79,6%.
O mesmo dinheiro garante menos de metade da área. Muitas pessoas estão a viver em casas que hoje já não conseguiriam comprar.
Na mesma linha de tempo, a valorização acumulada pela Bolsa de Lisboa foi interior. Investir em habitação, que já era mais seguro, tornou-se mais rentável do que investir em acções do índice PSI.
As rendas vão pelo mesmo caminho: os novos contratos, ainda de acordo com o INE, sofreram um aumento de 48,5% desde 2022 em Leiria, de 53,1% na Região de Leiria e de 54,5% no Oeste. Morreu a conversa de que em Portugal temos a “mania” de possuir imóveis, em vez de os arrendar. Agora a realidade é outra, bastante mais dura. Quem por estes dias suporta o custo de uma renda pode nunca vir a ter meios para adquirir casa própria.
Como se vê pelas estatísticas, não é um problema exclusivo dos maiores centros urbanos, nem dos municípios que estão a ganhar população mais rapidamente. É geral. Se, por absurdo, reduzirmos o mercado imobiliário a uma rua, vamos encontrar moradores com salários portugueses. E, ao lado deles, reformados da Europa e da América do Norte, nómadas digitais, proprietários de alojamento local a receber turistas, gente que trabalha remotamente para empresas estrangeiras com salários estrangeiros, imigrantes que dividem a renda, imóveis arrendados quarto a quarto e fundos de investimento. Por outras palavras, a receita para o desastre.
Tal como no dossiê imigração, o que está em causa é a desigualdade. Sem melhores condições de vida na origem, nos países emissores, os imigrantes vão continuar a chegar. Sem coragem, o mercado imobiliário vai continuar a aquecer.
Um país em que uns são senhorios e outros são inquilinos é um barril de pólvora. Por enquanto, a polícia consegue varrer as acampadas; no longo prazo, ninguém vai conseguir varrer a crise da habitação para debaixo do tapete.