Opinião
Letras | De Chaves a Faro a pé
O escritor partiu logo depois da Páscoa de 2019. Caminhou sozinho, enfrentando calor, tempestades, subidas, descidas, trânsito e cansaço. Deslumbrou-se com vales e montanhas e entristeceu-se com florestas recentemente queimadas. Mas o que mais o marcou foram as pessoas com quem se cruzou
Mais de dois mil anos separam a criação de Aquae Flaviae, pelo imperador Tito Flávio Vespasiano, da implantação do marco do quilómetro zero da Estrada Nacional 2. É em Chaves que se inicia a mais longa estrada de Portugal. Foi concebida em 1945, com o propósito de unir o país pelo interior, de norte a sul, até Faro, percorrendo 738,5 quilómetros. Atravessa 11 distritos, 35 concelhos e dezenas de localidades, entre planícies, serras e rios. E inclui "tudo o que não pode ser posto em números, como o canto dos pássaros e a vida das pessoas".
Quem no-lo diz é o escritor Afonso Reis Cabral, que a atravessou a pé durante 24 dias. Um feito raro sobre o asfalto habituado a camiões, carros, autocaravanas, motos e bicicletas. O autor de Pão de Açúcar (distinguido com o Prémio José Saramago) já se havia aventurado noutras façanhas, como viajar à boleia de um camião TIR até à Alemanha.
O escritor partiu logo depois da Páscoa de 2019. Caminhou sozinho, enfrentando calor, tempestades, subidas, descidas, trânsito e cansaço. Deslumbrou-se com vales e montanhas e entristeceu-se com florestas recentemente queimadas. Mas o que mais o marcou foram as pessoas com quem se cruzou: outros viajantes na estrada e os habitantes locais. Regista, sobretudo, o bom acolhimento, os convites para refeições em casas de família, o abrigo para descansar e as boas conversas.
No final de cada jornada, narrava a experiência na sua página de Facebook, num diário escrito no telemóvel. O relato digital ganhou forma de livro, publicado no mesmo ano da viagem, ilustrado com fotografias. Intitula-se Leva-me Contigo – Portugal a Pé pela Estrada Nacional 2.
Afonso Reis Cabral é trineto de Eça de Queirós, mas não se espera encontrar neste diário o detalhe descritivo de Os Maias. O seu “Ramalhete” junta uma escrita cuidada e despojada à experiência sensorial da viagem, como se todo o corpo fosse autor da obra.