Opinião

Música | A mulher que desenhava sons

6 nov 2026 17:11

É fácil financiar uma ideia cheia de indicadores e quase certezas. Mais difícil é financiar uma pergunta sem resposta. Hoje, milhões de pessoas fazem música desenhando linhas num ecrã. Ainda bem que alguém teve a curiosidade de pagar para ouvir

Em outubro de 1960, uma inglesa de 35 anos escreveu à Fundação Calouste Gulbenkian a pedir financiamento para uma máquina que transformava desenhos em sons. Queria fazer música com um lápis. Gostava de ter assistido à reunião em que discutiram o pedido. Imagino alguém a explicar que uma senhora pretendia desenhar riscos em película e ouvir o resultado. Outro a perguntar se aquilo fazia sequer sentido ou se seria apenas dinheiro deitado fora. O que é certo é que, dois anos depois, a Gulbenkian atribuiu-lhe 3.550 libras.

Daphne Oram, aos 17 anos, trocou o Royal College of Music pela BBC e, em 1958, ajudou a fundar o Radiophonic Workshop, onde se inventavam novos sons para a rádio e a televisão. Um ano depois, saiu. A BBC parecia-lhe demasiado conservadora. Queria sons para os programas.

Daphne queria descobrir sons que talvez exigissem outros programas. Instalou-se em casa e começou a construir a Oramics. Desenhava linhas e formas em película fotográfica de 35 milímetros. Luzes e células fotoelétricas liam os desenhos, permitindo controlar a altura, a intensidade e outras características do som. Era um instrumento musical que se tocava com um lápis, antes de os Beatles terem lançado o primeiro álbum e numa altura em que um computador ocupava uma sala inteira.

A máquina nunca chegou às lojas, mas funcionava. Quem hoje desenha notas ou curvas de volume num programa de produção musical reconhecerá o gesto. A Oramics não deu origem direta a esses programas, mas antecipou uma maneira de pensar e manipular a música que hoje nos parece perfeitamente natural. O que me fascina é que Daphne não procurava uma forma mais rápida de fazer música. Procurava fazer música que ainda não sabia que existia.

Tem alguma piada termos passado séculos a inventar instrumentos para fazer o impossível e estarmos agora tão entusiasmados com instrumentos que nos dispensam de fazer aquilo que, além de possível, talvez fosse bom continuarmos a fazer. Em 1965, a Gulbenkian voltou a apoiá-la, com mais mil libras. Daphne morreu em 2003. Em 2018, uma composição sua concebida em 1948, "Still Point", chegou aos BBC Proms, no Royal Albert Hall. Setenta anos depois. E foi magnífico.

Volto à carta de 1960. Gostava de saber quem a leu e achou que valia a pena. Talvez fosse apenas alguém suficientemente curioso para não confundir aquilo que não compreendia com aquilo que não tinha valor. É fácil financiar uma ideia cheia de indicadores e quase certezas. Mais difícil é financiar uma pergunta sem resposta. Hoje, milhões de pessoas fazem música desenhando linhas num ecrã. Ainda bem que alguém teve a curiosidade de pagar para ouvir.