Opinião
Música | Andrew Loog Oldham e a invenção dos Rolling Stones
Há uma tendência para imaginar o manager como alguém que trata de contratos e burocracias. Oldham percebeu cedo que gerir artistas era, muitas vezes, um exercício de imaginação e antecipação
A história da música costuma ser contada como uma história de amor. Que alguém ouve uma canção, sente aquele arrepio, trabalha, insiste, tem sorte e muda o rumo da história .
Mas muitas vezes o que acontece é mais prosaico e talvez mais interessante: alguém entra numa sala e pensa: “isto ainda não está lá, mas há aqui qualquer coisa”.
Andrew Loog Oldham tinha 19 anos quando viu uns miúdos ingleses que tocavam blues americano com demasiada vontade e muito pouco dinheiro. Os Rolling Stones ainda não eram uma banda a sério. Quando muito eram um esboço mal penteado.
Oldham não parece ter ficado imediatamente deslumbrado com a música. O que viu foi uma oportunidade. Vinha do mundo da promoção e já tinha passado pela órbita dos Beatles e percebia uma coisa: às vezes o talento aparece antes da ideia do que fazer com ele.
Os Beatles já ocupavam o centro. Eram educados, fotogénicos, aceitáveis para mães e programas de televisão. Oldham olhou para os Stones e percebeu uma regra antiga: quando alguém ocupa o centro, raramente vale a pena tentar imitar.
Em vez de rapazes exemplares, seriam insolentes. Em vez de aprovação, provocação. Em vez de bons rapazes, uma ameaça suficientemente inofensiva para vender discos e suficientemente perigosa para parecer verdadeira.
Como se não bastasse, insistiu que Mick Jagger e Keith Richards começassem a escrever canções.
Tenho para mim que não era apenas por acreditar que dali viessem a sair obras-primas, mas percebia que quem escreve as próprias músicas controla melhor o seu destino.
Há uma tendência para imaginar o manager como alguém que trata de contratos e burocracias. Oldham percebeu cedo que gerir artistas era, muitas vezes, um exercício de imaginação e antecipação.
Oldham cultivou durante anos uma certa distância em relação ao mito romântico do manager apaixonado pela música e nunca pareceu interessado em ser um fã dos Stones. Preferia ser o homem que percebeu o que eles podiam vir a ser e o que poderiam vir a representar.
Ser manager é uma função ingrata porque o sucesso, depois de acontecer, parece sempre inevitável.
Mas não era.
A diferença entre uma banda histórica e uma aventura musical efémera entre amigos pode estar em alguém que olha para uns miúdos e pensa:
“Acho que sei como é que isto pode resultar.”
E, às vezes, resulta.