Opinião

Música | Antes da Flauta

9 out 2026 10:48

A Cultura na escola não pode ser só aquilo que fica depois de as pessoas morrerem. Começa por ser a evolução do pensar e do fazer que conseguimos passar uns aos outros enquanto aqui estamos

Os miúdos na escola sabem quem foram D. Sancho II, D. Afonso VI e D. Sebastião, mas se calhar não sabem quem foi o Zé Pedro. Os três primeiros ficaram na História pelo que perderam. O Zé Pedro fica na nossa pelo que nos deu.

Mas sim, eu sei que não se pode ensinar tudo. Ensinamos-lhes que o Mondego nasce na Serra da Estrela e desagua na Figueira da Foz, os reis, as dinastias e as rochas metamórficas. Tudo muito bem e necessário. E depois damos-lhes uma flauta para meterem na boca. A verdade é que continuamos a tratar a música popular como uma espécie de intervalo entre coisas sérias.

O novo livro da Rita Nabais chama-se A História do Rock Português (para pais fanáticos e filhos com punkada) e tem um prefácio de Adolfo Luxúria Canibal que devia ser lido nas escolas. Primeiro ou segundo ciclo. Sobretudo antes deles serem obrigados a soprar para uma flauta. Não era para ensinar às crianças que deviam gostar de rock. Isso era tão idiota como obrigá-las a gostar dos Lusíadas, de brócolos ou dos pais. Mas talvez lhes passasse algo mais importante: a música também serve para perceber o tempo em que vivemos e aquele em que viveram os outros. Uma cassete gravada da rádio diz muito sobre 1991. Um CD riscado no porta-luvas pode trazer uma adolescência inteira lá dentro e um ficheiro chamado FINAL_final2.mp3 pode ajudar a explicar o início dos anos 2000.

As gerações também se podem medir pelo que ouviram e pela maneira como ouviram. Uns levantavam uma tampa, outros viravam uma cassete, depois carregámos em gavetas e agora os nossos filhos carregam num vidro. E entretanto já há quem faça quase tudo ao mesmo tempo.

Mudou muito e continuamos à procura de músicas para o mesmo: para animar, esquecer, atravessar uma fase, dançar com alguém ou ficarmos sozinhos. É por isso que livros como este da Rita importam. Não porque finalmente puseram o rock português numa estante (ele tem passado a vida a tentar fugir delas), mas porque nos lembram de onde ele vem. Durante anos repetimos que nasceu em 1980, como se o Rui Veloso tivesse acordado uma manhã, ligado uma guitarra e zás: rock português. Depois começamos a andar para trás e encontramos os Sheiks, o Quarteto 1111, os Chinchilas, os Beatnicks. Mais um passo e aparece Zurita de Oliveira, em 1960.

A Rita Nabais passou quatro anos a ligar princípios, meios e fins, e eu admiro-lhe a coragem de se ter mandado a isto e, sobretudo, de ter chegado ao fim. Procurou bandas, discos, histórias, datas, canções e, no meio de milhares, teve de escolher: 164 artistas e quase mil músicas. Acabou por desenhar uma árvore genealógica para aqueles e aquelas que às vezes nem sabiam que eram da mesma família.

Os miúdos de hoje fazem um disco num portátil, no quarto. Antes, para ouvir certas músicas, era preciso esperar que alguém as passasse na rádio. Havia cassetes gravadas para não se perderem, revistas inglesas e alemãs para descobrir discos que não chegavam cá, amplificadores montados em casa, concertos com 12 pessoas e rádios piratas em sótãos. Foi daí que viemos.

A Cultura na escola não pode ser só aquilo que fica depois de as pessoas morrerem. Começa por ser a evolução do pensar e do fazer que conseguimos passar uns aos outros enquanto aqui estamos. No dia 10, a Rita apresenta o livro na Arquivo e, se tudo correr bem, um pai ou uma mãe compra-o e leva-o para casa. Um filho abre-o numa página qualquer, encontra um nome que nunca ouviu e procura uma música. Carrega num vidro. E, felizmente, começa tudo outra vez.