Opinião
Música | As notas fantasma e a dignidade do invisível
São o esqueleto oculto da melodia. Na verdade, vivemos à volta destas notas fantasma. O técnico de som que afina o microfone, a mulher da limpeza que esfrega o chão do auditório antes da estreia, os carregadores que sobem as escadas com o piano de cauda
No livro Nina Simone’s Gum. A Memoir Of Things Lost And Found, Warren Ellis, o multi-instrumentista australiano e braço direito de Nick Cave, reserva um dos seus melhores capítulos para o técnico de som Matt Crosbic. Graças a um know-how feito de ouvidos absolutos e mãos precisas, conseguiu o impensável: entrar no círculo restrito e temperamental de Nina Simone.
A artista ficou tão impressionada com a forma este profissional moldava o ar e a acústica que o elevou acima de todos. Produtores, empresários e até outros músicos de renome foram mantidos à distância, mas Crosbic passou a ser convocado para tarefas de carácter pessoal durante as suas digressões. Nina valorizava, acima de tudo, o trabalho bem feito. Ali, na escuridão da cabine de som, ela reconheceu o talento. Para Crosbic, não foi apenas um prazer; foi uma realização profunda. A aquisição do maior bem que um profissional pode almejar: o reconhecimento genuíno pela sua arte. Mesmo que, para o mundo exterior, a sua invisibilidade continuasse intacta.
Mas esta invisibilidade não é um exclusivo dos bastidores dos grandes palcos. É a geografia silenciosa do mundo. Em Portugal, a jornalista Rita Pereira Carvalho deu-lhe rosto e voz no livro As Invisíveis. Histórias Sobre o Trabalho de Limpeza. "As noites nos autocarros da Carris, em Lisboa, e as conversas com quem acorda às três ou quatro da manhã para trabalhar deixaram a certeza de que este trabalho não é conhecido, nem reconhecido", escreve. São as mãos que preparam o cenário para que a vida dos outros aconteça, tal como o técnico de som prepara o palco para que a diva brilhe.
Do outro lado do Atlântico, o New York Times dedicou uma investigação aos trabalhadores de empresas de mudanças. Homens e mulheres que carregam o peso físico das transições alheias. A investigação revela que estes profissionais ocupam o lugar da frente nas situações mais insólitas: assistem na primeira fila aos momentos de felicidade de casais que vão morar juntos, mas também são espectadores de separações dolorosas, onde as discussões estalam como se eles não estivessem lá.
Na música, existe um conceito técnico chamado ghost notes. A maior parte dos músicos sabe que sem elas, o ritmo perde groove. Elas são o esqueleto oculto da melodia. Na verdade, vivemos à volta destas notas fantasma. O técnico de som que afina o microfone, a mulher da limpeza que esfrega o chão do auditório antes da estreia, os carregadores que sobem as escadas com o piano de cauda. Pagamos bilhete para ver a luz, para ouvir a voz, para aplaudir o solista no centro do palco. A magia só acontece porque há alguém, na penumbra, a garantir que o cabo não tropeça, que o chão não escorrega, que o peso não esmaga.