Opinião

Música | Hal Blaine, um músico com 150 músicas no top 10

25 mai 2026 11:54

Um número tão absurdo que parece inventado. Durante anos foi provavelmente o músico mais ouvido do planeta sem praticamente ninguém conhecer o seu nome

Durante os anos 60 e 70, houve uma probabilidade absurda de ligar a rádio e ouvir Hal Blaine sem o saber.

A bateria em “Be My Baby” das Ronettes, “Good Vibrations” dos Beach Boys, “Mrs. Robinson” de Simon & Garfunkel, “Strangers in the Night”, “These Boots Are Made for Walkin’”, “Bridge Over Troubled Water”, sucessos de Elvis Presley, Frank Sinatra, The Byrds, The Mamas & The Papas ou Sonny & Cher. Tudo com Hal Blaine a marcar o ritmo.

Ao longo da carreira participou em mais de 35 mil gravações e tocou em cerca de 150 singles que chegaram ao Top 10 (40 deles ao número um). Um número tão absurdo que parece inventado. Durante anos foi provavelmente o músico mais ouvido do planeta sem praticamente ninguém conhecer o seu nome.

Blaine fazia parte da chamada Wrecking Crew, um grupo informal de músicos de sessão de Los Angeles que acabou por definir o som da pop dos anos 60. Enquanto as bandas apareciam nas capas dos discos, eram muitas vezes estes músicos que gravavam efetivamente os temas.

Brian Wilson, dos Beach Boys, dizia que ele era “o maior baterista de pop de sempre”. Phil Collins chamou-lhe “o homem que inventou a bateria pop moderna”. E, para Brian Eno, aquela entrada de bateria em “Be My Baby” continua a ser “o momento mais perfeito da história da pop”.

Curiosamente, Hal Blaine nem começou como baterista. Tocava guitarra e saxofone antes de passar para a bateria, algo que aconteceu quase por acaso e por necessidade durante algumas gravações. Há histórias de entrar num estúdio às nove da manhã para gravar um tema de Nancy Sinatra, atravessar a cidade depois de almoço para uma sessão dos Beach Boys e terminar o dia num disco de Simon & Garfunkel. Tudo no mesmo dia.

O seu maior talento era encontrar imediatamente a batida certa para uma canção e torná-la memorável. Muitas vezes bastavam-lhe poucos minutos para decidir um padrão rítmico que acabaria eternamente colado ao tema.

Blaine desenhava frequentemente círculos nas peles da bateria para indicar onde queria bater exatamente em cada música. Chamava-lhes “the perfect spots”. Pequenos detalhes de obsessão técnica que ajudaram a criar aquele som extremamente consistente que os produtores adoravam.

E, para além de tocar extraordinariamente bem, Blaine resolvia problemas. Inventava soluções rápidas, simplificava sessões, criava ideias espontâneas e gravava quase tudo à primeira. Num mundo onde o tempo de estúdio custava fortunas, isso valia ouro.

Enquanto o rock construía mitologias em torno de excessos, egos e estrelato, Hal Blaine aparecia discretamente, sentava-se atrás da bateria e fazia história.