Opinião
O alcoólatra erudito
Era a madrugada de 28 de setembro e o homem entra esbaforido, encosta-se ao balcão e solenemente atira-me: “Já sabes que o Campeonato do Mundo de Xadrez foi suspenso?
Acomeçar, assumida e publicamente, me confesso um imprudente em causa própria, pelo que antecipo à apreciação de todos que fazem o favor de ler este alinhamento de palavras debitadas sem parcimónia ou sentido, que não irei falar do “caso” que amarga a boca de uns e inflama todos, “ronaldistas” ou “jorgejesuítas”.
Desde gaiato sempre manifestei um talento notório para o desjeito de jogar à bola, o que fazia de mim o último dos últimos a ser escolhido e quando o número par catraios obrigava a que fosse selecionado, cabia-me lugar à baliza por onde entrava a bola rematada pelos adversários sem que alguma vez entendesse por onde tinha passado. Uma vergonha que até qualquer miúda, se por esse tempo ancestral lhes fosse possível jogar à bola, faria melhor figura.
E porque não sei opinar sobre o “caso”, dei comigo a recordar uma história verdadeira que vos entrego hoje, acerca de um outro Campeonato Mundial, corria o ano de 1978, e desta feita de Xadrez. Anatoly Karpov, em representação da União Soviética, campeão em título, tinha sido desafiado por Viktor Korchnoi, um desertor da mesma URSS e que se apresentou na contenda sem bandeira. Disputaram 32 longas partidas, com 21 empates e Karpov revalidou o título pela diferença mínima.
Na altura ajudava como podia o meu saudoso sogro que explorava uma taberna por onde se entrava por uma porta escusa mesmo em frente à Rodoviária Nacional, em plena Av. Heróis de Angola. Abríamos portas pelas oito da manhã e o primeiro cliente era sempre um infeliz enteado da vida que religiosa e pontualmente emborcava o mata-bicho de um trago só. Um copo de cinco de vinho do Porto e bagaço, nas proporções de meio-por-meio.
Era a madrugada de 28 de setembro e o homem entra esbaforido, encosta-se ao balcão e solenemente atira-me: “Já sabes que o Campeonato do Mundo de Xadrez foi suspenso?”. Fiquei de queixo caído com o peso do espanto e da minha presunção intelectualóide: então a criatura sabia de um jogo tão erudito e de estar a decorrer uma competição que tinha o peso de uma batalha decisiva em plena Guerra Fria?
“Não, não sabia”. - Pois é! – respondeu-me ele – o Papa João Paulo I morreu esta noite e os bispos foram todos para o Vaticano. O meu cérebro entrou em convulsão: então ele também sabe que no tabuleiro há quatro bispos? Elaborou esta piada entre o sair de casa (a notícia tinha sido dada nos serviços informativos da rádio às sete da manhã) e o chegar aqui? Claro está que nessa manhã lhe ofereci o copo matutino. Por estas e por outras tenho estado atento aos que nada dizem sobre o “caso” e de outras variadas e mais preocupantes coisas vão falando.