Opinião
O Lado Lunar | Jogo perigoso
A matemática dos pobres pode ser um excelente negócio para quem a explora. Discutir imigração e habitação exige olhar também para esta realidade. Para quem arrenda, para quem subarrenda, para quem fiscaliza e para quem fecha os olhos. Exige perceber como se transforma uma necessidade elementar num negócio assente na vulnerabilidade.
A famosa — ou infame — crise migratória europeia ganhou uma nova dimensão com a guerra civil na Síria, no rescaldo de uma Primavera Árabe que nem sempre fez jus ao nome.
A 31 de agosto de 2015, Angela Merkel, com uma humana, demasiado humana "batata quente" nas mãos, declarou: "Wir schaffen das". Vamos conseguir.
Corajosa para uns, desastrosa para outros, a frase tornou-se o símbolo de uma Alemanha que recebeu refugiados com mantas, comida e abraços.
O país tinha experiência de acolhimento e uma vasta comunidade de origem turca.
Assumiu um papel decisivo numa altura em que países nas principais rotas de chegada, como a Grécia, a Itália e a Turquia, enfrentavam enormes pressões. A situação era verdadeiramente dramática.
A Europa apresentava-se como terra de oportunidades.
Mas estes movimentos colocavam desafios diferentes dos de outros fluxos migratórios, como o dos portugueses que partiram para França.
Exigiam respostas à altura: acolhimento, integração, habitação, serviços públicos e combate à exploração.
Foi aí que a promessa começou a perder substância.
À chegada de pessoas nem sempre correspondeu a preparação necessária para as receber. E aquilo que exigia planeamento tornou-se matéria de disputa partidária.
Chegámos a uma polarização que se alimenta a si própria.
À direita e à esquerda, demasiados responsáveis preferem deitar gasolina no fogo a reconhecer falhas de decisão e execução.
Pelo meio, acumulam-se tensões sociais, dificuldades no acesso à saúde, à habitação e à educação, episódios de violência e respostas policiais que também têm de ser escrutinadas.
Quem vive pior acaba a disputar com quem vive igualmente mal aquilo que devia estar ao alcance de todos.
Um exemplo são as declarações de Leitão Amaro que associam o aumento da imigração ao problema da habitação.
A questão merece ser discutida. O problema começa quando a associação serve de explicação e dispensa o resto da conversa.
Falta, por exemplo, olhar para as chamadas "camas quentes": espaços sobrelotados, por vezes ocupados por turnos, onde a precariedade de uns se transforma no rendimento de outros. Faça-se uma conta simples: numa casa arrendada por 2300 euros, 23 pessoas a pagar 100 euros cada uma cobrem a renda. O valor incomportável para uma família torna-se possível à custa da sobrelotação e da perda de condições de vida.
A matemática dos pobres pode ser um excelente negócio para quem a explora.
Discutir imigração e habitação exige olhar também para esta realidade.
Para quem arrenda, para quem subarrenda, para quem fiscaliza e para quem fecha os olhos.
Exige perceber como se transforma uma necessidade elementar num negócio assente na vulnerabilidade.
Mas a discussão política raramente se demora nestas histórias de carne e osso.
Prefere a frase que cabe num título, circula nas redes e rende votos. Dividir para conquistar continua a dar resultado.
Mesmo quando se reconhecem a falta de construção e outros fatores, a mensagem que fica pode ser outra: há gente a mais, e essa gente veio de fora.
A insuficiência da oferta, os atrasos das respostas públicas, os incentivos do mercado e a exploração habitacional passam para segundo plano.
O aumento da procura pode pressionar a habitação. Não basta, porém, para explicar a crise, muito menos para justificar que se transforme quem procura casa no culpado por não a haver.
É nesta procura incessante de um bode expiatório que assenta uma parte do discurso político europeu. Mudam os protagonistas e os alvos; repete-se o mecanismo. A complexidade dá lugar à ameaça, a responsabilidade dissolve-se e o problema ganha um rosto conveniente: o estrangeiro, o adversário, alguém suficientemente distante de quem fala.
Se não tens casa, aponta-se para o Ahmed. Se os serviços falham, aponta-se para quem acabou de chegar. Do outro lado, também há quem responda com acusações cuja convicção excede as provas. Todos parecem saber quem culpar. Escasseiam os que explicam o que fazer.
Jogo perigoso, de pé em riste.
Esta cortina de fumo aproxima-nos do "vão trabalhar, malandros" e do "vai para a tua terra" das caixas de comentários, enquanto nos afasta da pergunta essencial: que medidas vão ser tomadas para resolver o problema?
Por cá, a conversa salta da habitação para os jovens de Lisboa e do Porto, daí para a legitimidade de uma carga policial e depois para a interpretação dos direitos constitucionais. São debates necessários. Mas nenhum dispensa respostas concretas sobre o acesso a uma casa.
Entretanto, a vida acontece — ou fica suspensa à espera de condições para acontecer.
Precisamos de discutir medidas, prazos, meios e responsabilidades. O que vai ser construído? Como se combate a exploração? Como se garante que trabalhar permite pagar uma casa? Quem executa, quem fiscaliza e quem responde pelo que fica por fazer?
É para isso que entregamos o nosso voto e pagamos impostos. Não para recebermos uma mão-cheia de acusações e outra de promessas vazias.
No Instagram, leio: "Artista sem posicionamento político é como uma planta de plástico: só decora o ambiente e não serve para mais nada."
Dá que pensar. Para a semana, voltarei ao assunto: o que significa, para quem trabalha nas artes, tomar posição? E como responder a estas sentenças sem ligeireza, sem tibieza e sem reduzir o pensamento a um bate-boca até que a voz nos doa?